Teatro | Romeu e Julieta: obra-atentado em homenagem aos que morreram lutando

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Romeu e Julieta, a peça original de William Shakespeare, existe desde o final século XVI. Desde então, todos conhecem a história dos dois jovens apaixonados que se mataram por amor (e, se não leram a peça, ao menos ouviram falar ou assistiram às adaptações de filmes da história). Mas o que poucos lembram ao falar do romance é o fato que levou os dois a sequer existirem: a guerra entre suas respectivas famílias.

Ao organizar a trama, Shakespeare optou por anunciar, na primeira página, a morte dos amantes (ainda bem que, na época, ninguém sofria com spoilers). Isso foi o que intrigou Felipe Rocha, diretor e ator da peça Romeu e Julieta: Obra-atentado em homenagem aos que morreram lutando, que estreia em São Paulo na próxima sexta-feira, dia 5 de maio. “Bom, se está na primeira cena, acho que o texto não é sobre isso”, pensou há dois anos, quando começou a produzir a releitura da história original junto do Heterônimo Coletivo de Teatro, formado por alunos e ex-alunos de Artes Cênicas da Universidade de São Paulo (USP).

Foi pensando na guerra de antes, nas guerras de agora e em como as relações humanas transgrediram, que a nova versão surgiu. Poética e filosófica, a peça traz dois Romeus e duas Julietas vivendo em meio a tempos sombrios, onde fantasmas do passado trazem soluções que já não são mais articuláveis, humanos não se veem mais como iguais e onde, pelo cenário da situação, o amor tem um papel maior do que lhe é designado na peça original: o de luta e resistência.

Os atores preenchem o cenário simples com suas atuações impactantes e fortes, dosando na guerra o humor frívolo e os questionamentos de uma geração que tenta quebrar os paradigmas de seu tempo e da humanidade. Um dos maiores questionamentos dos protagonistas é o de, se um dia, conseguirão se ver chegando à velhice. Aqui, os (agora) quatro amantes vão na contramão do desejo de suas famílias e da regra que os impõem a serem mortos no final da história. O questionamento é válido. A luta diária contra a barbárie, a intolerância e o tradicionalismo torna o saber de se estar vivo incerto.

“Devemos reconhecer que estamos numa guerra há muito tempo. Mulheres, negros e LGBTs estão morrendo há muito tempo, então vamos assumir e falar quais são essas vozes que são caladas, que se levantam contra essa guerra e, por isso, estão sendo mortas”, explica Lívia de Souza, uma das Julietas do espetáculo.

Levar a guerra para um palco de teatro é um desafio imenso, porém chegar ao arrepiante resultado dá orgulho ao grupo. O ato de rebelião e de protesto é de tirar o fôlego e faz refletir em como é possível haver amor mesmo em tempos de guerra. O espetáculo busca negar verdades consideradas absolutas, mas que são cruelmente impostas pelo conservadorismo e pelo medo, além de considerar quantos amores já deixaram de existir por conta dessa linha de pensamento. Ainda há um longo caminho a percorrer até que saiamos da transgressão e cheguemos na mudança. “É uma tentativa diária que não começa e nem se encerra aqui: é uma passagem. A peça é toda construída nessa ideia de fluxo, então estamos tentando mover o vento para que aconteça algo”, conclui o ator Ametonyo Silva, um dos intérpretes de Romeu.

Serviço

Peça: Romeu e Julieta: obra-atentado em homenagem aos que morreram lutando
Grupo: Ophélia Trava: Heterônimo Coletivo de Teatro
Onde: Centro Compartilhado de Criação (CCC). Rua Brigadeiro Galvão, 1010 – Barra Funda, São Paulo (SP)

Temporada: De 5/5 a 28/5, Sex e Sáb às 21h, Domingo às 20h
Ingressos: Inteira R$ 20,00 / Meia R$ 10,00
Lotação: 60 pessoas
Duração: 80 minutos

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Quem escreveu isso?

Jornalista (em formação, mas ainda assim) paulistana de 19 anos. Escreve sobre filmes, séries e, fora do Mundo Blá, crises existenciais. Gosta de vinis, livros, Instagram e de aprender cada dia mais sobre o mundo do cinema.