Resenha | Sonhos Partidos: quando protagonistas não funcionam

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Capa da edição publicada pela Intrínseca.

Quando a gente lê a sinopse de Sonhos Partidos (Intrínseca, 2015, 256 p.), a primeira impressão que temos é de que o livro é sobre Lindy: a investigação e as consequências do estupro que sofreu na juventude. Aparentemente, um thriller investigativo. Mas não é. Embora seja esse o fato que move e permeia toda a história, não é ela a protagonista. O estupro é, sim, o fio condutor de muitos acontecimentos na narrativa, porém sob a perspectiva de outra pessoa.

No fim das contas, Sonhos Partidos é sobre o vizinho e colega de escola de Lindy (que, acredite, não tem em nenhum momento seu nome revelado). A história é muito mais sobre a sua juventude no início dos anos 1990, sobre crescer no calor da pacata Baton Rouge, sobre a sua paixão-quase-obsessão por Lindy, sobre as perdas e mudanças que o transformaram no homem que é hoje.

Ainda que eu goste dessas histórias simples que acompanham a juventude do protagonista (Os Bons Segredos é o melhor exemplo disso), que mostram o passar dos anos, com algumas reviravoltas trágicas e plausíveis, contudo sem acontecimentos mirabolantes ou extraordinários, Sonhos Partidos não funcionou comigo. O protagonista não gera empatia. Ele não é carismático, nem problemático o suficiente. Não é complexo, denso ou envolvente ao ponto de nos interessarmos por seus problemas. Seus dilemas e comportamento são compreensíveis, mas não são interessantes o suficiente para criar um protagonista marcante.

Além disso, a história não prende, o enredo não faz mergulhar. O único momento que realmente fiquei envolvida e me peguei lendo de forma mais interessada foi lá nas últimas páginas, quando ele e Lindy se encontram décadas depois. Só.

O autor M. O. Walsh.

A melhor parte de Sonhos Partidos é que é sobre as memórias da adolescência, uma releitura daquela época conflituosa, que passa num piscar de olhos e que nos marca de uma forma tão forte e, ao mesmo tempo, tão sutil que só nos damos conta dessas cicatrizes e reflexos décadas mais tarde. A pior parte de Sonhos Partidos é que a história não trabalha essa questão da forma tocante ou envolvente que poderia. Uma pena.

Ficha Técnica

Livro: Sonhos Partidos
Autor: M. O. Walsh
Editora: Intrínseca
Páginas: 256
ISBN: 9788580577938
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Quem escreveu isso?

Tarsila Zamami sempre quis ser profiler. Enquanto não é recrutada para trabalhar na BAU, dedica-se à sua outra paixão: entretenimento. Formada em jornalismo pela PUC-SP, acredita que é no cotidiano que estão os melhores enredos. Ama histórias. Das pessoas e das telonas. Perfeccionista, viciada em listas, maníaca por séries e apaixonada por Moleskines. Sempre quis jogar Jumanji. Para saber (quase) tudo acesse seu blog: confissoesesincericidios.com