Séries | Gipsy: Em Defesa de Jean Holloway

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(SPOILER ZONE: esse texto contém spoilers de toda a 1ª temporada)

Gypsy mal estreou e já foi cancelada. De fato, foi até agora o cancelamento mais rápido da Netflix: apenas seis semanas após seu lançamento já foi anunciado que não veremos o que acontecerá com Jean depois de todas aquelas revelações do final.

E, aparentemente, eu sou a única pessoa que vai sentir falta da série.

Sei que não emplacou e acho que não vi ninguém nesse terrenão da internet elogiando muito a trama (pelo contrário: “chata” e “fraca” foram provavelmente as críticas mais suaves que li por aí), mas comigo ela funcionou demais.

Tem uma parte de mim que sempre quis fazer Psicologia. E, de uns meses para cá, essa vontade tem aumentado cada vez mais. Então não foi muita surpresa eu ter me apaixonado por Gypsy. Ok, não que Gypsy seja um bom exemplo para quem quer fazer Psicologia e, por isso, entendo a enxurrada de profissionais da área criticando a série. Mas, gente, é só uma série. Ninguém vai acreditar que todo psicólogo é assim. Jean Holloway (Naomi Watts) é o melhor exemplo do que não fazer na profissão. Ela ultrapassa todas as fronteiras da ética profissional.

A história

Jean deliberadamente escolhe se envolver com as pessoas mais próximas de seus pacientes. E, para isso, ela mente sobre tudo e cria um alter ego: Jean Holloway, a terapeuta, vira Diane Hart, a jornalista.

Por exemplo: Claire (Brenda Vaccaro), uma de suas pacientes, tem um relacionamento complicadíssimo com Rebecca (Brooke Bloom), sua filha, então lá vai Jean virar Diane e iniciar casualmente uma amizade no salão com Rebecca. Allison (Lucy Boynton), outra paciente, tem problemas com drogas e vive um relacionamento abusivo, então Jean (dessa vez como Jean mesmo) começa a se meter no relacionamento de Allison e nas suas decisões de forma inapropriada.

Foto: divulgação/Netflix

E o mais complicado de todos: Sam (Karl Glusmanas), outro de seus pacientes, tem uma dependência e obsessão por sua ex-namorada e Diane não só vai atrás de Sidney (Sophie Cookson) e começa a ter um caso com ela, como também passa a desenvolver uma espécie de obsessão pela barista também.

O poder de influenciar outras relações

Por que, afinal, Jean faz tudo isso é a pergunta que embala todos os episódios.

Embora totalmente condenável em termos de ética profissional, de certa forma também é compreensível a sua decisão de procurar conhecer as pessoas de quem seus pacientes falam tanto. Em seu consultório ela só tem a visão de um lado da história e, cruzando completamente os limites da postura profissional, ela decide ir atrás da outra versão da história.

Ao procurar Rebecca, a filha de Claire, ela se dá conta do quanto sua paciente pode ser invasiva e sufocar a filha. E, no começo, de um jeito torto e errado, ela tenta ajudar essas pessoas, porém acaba bagunçando ainda mais as coisas. Jean busca reaproximar mãe e filha, tentando mostrar para cada uma as razões que levaram a outra a se comportar daquela forma. Com Allison ela também a ajuda a sair do vício e do relacionamento abusivo. Mas na reta final ela está mais preocupada que nenhum dos dois lados descubra a sua mentira, então não hesita em afastar Claire e Rebecca ou em mentir sobre sua proximidade e avaliação sobre Allison quando ela desaparece.

Já com Sam seus interesses próprios estiveram em primeiro lugar desde o começo. Ela deixa sua atração por Sidney falar mais alto e está mais interessada em afastá-los. Nos últimos episódios, entretanto, ela se mostra incomodada com Sam se recuperando de sua obsessão por Sidney e se relacionando com outra pessoa.

Ao mesmo tempo, Jean parece ter um certo prazer em acidentalmente mostrar para Sidney, que parecia gostar de exercer tanto poder sobre Sam, como ele está feliz longe dela. No último episódio ela já perdeu totalmente a cautela e até convence Sidney que as duas deveriam ir ao local da festa de noivado de Sam para observar de longe. Ao mesmo tempo que não quer ser descoberta, a tentação de se colocar em situações arriscadas em que isso pode acontecer a excita.

Nas falas finais, a personagem nos dá a entender que tudo isso tem a ver com poder. Não sobre os outros, mas sobre ela mesma:

As duas vidas de Jean

O mais curioso é como Jean vai incorporando os comportamentos das pessoas com as quais ela vai se relacionando. A terapeuta passa a beber mais depois que conhece Sidney, envia para a cantora um texto de autoria de Alexis (Melanie Liburd), secretária do seu marido, como se fosse ela quem escreveu e até furta medicamentos de uma mãe da escola de sua filha depois que conhece Allison.

Gypsy tem essa combinação envolvente entre sessões de terapia da Dra. Jean Holloway e a sua vida particular que, mais do que nunca, se misturam loucamente. Ao mesmo tempo em que vive a clássica vida de profissional, mãe e esposa de classe média, também vemos a sua inquietação, a vontade de experimentar sentimentos extremos, o envolvimento totalmente incorreto com os parceiros de seus pacientes. E, no meio desse turbilhão, os papéis se invertem e somos nós que analisamos quem devia analisar os outros.

Foto: divulgação/Netflix

Embora o último episódio dê a entender que isso acontece há anos, em boa parte da série temos a sensação de que o desencadeou o comportamento de Jean foi uma crise de meia idade. Sempre vemos essas crises na ficção sendo materializadas na figura do homem e uma das melhores coisas na série é a trama abordá-la sob a ótica feminina.

E isso se deve em grande parte ao fato da série ter sido escrita por uma mulher. Lisa Rubin se inspirou na música Gypsy da banda americana Fleetwood Mac para criar a história e também insistiu para que boa parte da equipe fosse composta por mulheres. Sam Taylor-Johnson, diretora de Cinquenta Tons de Cinza, além de assinar a produção, dirigiu os dois primeiros episódios. Boa parte das personagens centrais também são mulheres (yay), mas infelizmente não têm tanta profundidade quanto Jean (aaaaaah :/).

E não é só o lado B de Jean que prende atenção. A sua vida em casa também traz outras nuances interessantes: o ciúme que tem de Alexis, o casamento com Michael (Billy Crudup) e a dúvida que paira nos primeiros episódios se ele a trai ou não, a relação conflituosa com outras mães do colégio e o processo da sua filha de 8 anos descobrindo sua identidade e gênero (que poderia ter sido mais abordado nas outras temporadas #RIPSeason2).

Foto: divulgação/Netflix

Jean e somente Jean: é ela quem faz de Gypsy uma série tão boa

Veja bem: eu gostei de Gypsy, mas foi a sua protagonista que adorei. Ela é a única personagem que cativa e envolve na história toda. Naomi Watts está ótima no papel e amo como Jean representa a dualidade entre a vida que levamos e os nossos desejos mais íntimos. Jean é aquela mulher, profissional, mãe e esposa que vemos, mas também é aquele turbilhão de emoções, imprudência, manipulação e desejo. E um narcisismo alarmante.

Ao mesmo que está confortável e satisfeita na sua vida de subúrbio, ela também sente falta da agitação e da liberdade que tinha quando solteira. E a prova de que ela nunca se desprendeu totalmente desse seu outro “eu” é ter mantido o seu apartamento da época de solteira, como um refúgio e uma lembrança daquela sua vida mais livre e aventureira. Talvez até seja isso o que a atraia tanto em Sidney: a cantora lembra o que Jean costumava ser quando mais jovem.

Foto: Alison Cohen Rosa/Netflix

Em uma das suas falas mais emblemáticas, ela confessa em um jantar:

“Acho que tenho vivido minha vida como duas pessoas. E às vezes isso é confuso e eu não sei qual é a verdadeira, qual é a mais autêntica. Porque eu posso fingir ser eu. Posso ser uma pessoa em um nível alarmante, imperceptível até às pessoas mais próximas a mim. Não sei quem mais está no controle. Ou quem eu quero ser.”

Em outra cena, em que Sidney pergunta como ela mataria alguém, Jean também revela:

“Eu não usaria uma arma ou uma faca, a não ser em legítima defesa. Acho que eu usaria minha mente. É a minha melhor arma: ler pessoas. Eu descobriria as fraquezas delas e exploraria.”

O mais irônico nessa fala é que, ao longo dos episódios, em alguns momentos a gente fica com a sensação de que ela talvez seja mais ingênua do que manipuladora nesse jogo todo.

Jean mente sobre seu nome, profissão e cria uma nova identidade, mas no fim das contas, as duas personas que habita não são nada mais que mesma. E, flertando com o perigo de ser descoberta por ambos os lados, vive como essas duas pessoas em sua jornada de descoberta e quase autodestruição.

E, no fundo, todos nós somos essa mistura de brisa e tornado, não somos? O que nós mostramos aos outros é o que realmente somos? Ou quem gostaríamos de ser? O que nós faríamos se ninguém estivesse olhando? Quem nós seríamos se ninguém estivesse olhando?

O último episódio

Dez episódios depois, a sensação que fica é a de que não a conhecemos totalmente, que ainda não compreendemos todas as suas razões.

Confesso que quando começou a mostrar aquele carro na porta da casa e Jean falando toda alterada e quase paranoica que o carro a estava vigiando fiquei com muito medo da história terminar com a revelação de que ela era esquizofrênica, bipolar ou tinha outra doença psiquiátrica. Se isso acontecesse, eles iriam justificar todos os conflitos e ações de Jean com uma doença e eu realmente acho que ia estragar e simplificar tudo. Não é preciso ter alguma doença psiquiátrica (ok, talvez alguns traços de sociopatia) para fazer o que Jean fez e, ainda bem, que a história não descambou para esse lado.

O último episódio trouxe à tona muitas revelações e perguntas não respondidas, abrindo margem para uma próxima temporada. Qual exatamente era a relação entre Jean e Melissa (Kerry Condon)? Melissa era sua paciente? Jean a manipulou para assumir a culpa do incêndio da casa dos pais como parece? Há quanto tempo ela criou Diane Hart (porque, claramente, Sidney não foi a primeira pessoa com quem ela utilizou esse nome)? Há quanto tempo Jean utiliza seu poder de manipulação com as pessoas? Como Michael conhecia o nome Diane Hart?

Além disso, todas as histórias que a gente acompanhou ao longo da temporada também ficaram em aberto: como iria ficar a relação entre Sidney e Jean? A barista iria expor suas mentiras? Por que o ex-namorado de Allison a sequestrou? Michael iria pedir o divórcio? A polícia iria atrás de Jean pelo desaparecimento de Allison?

Caramba, como eu queria uma segunda temporada!

Por que eu gostei tanto de Gypsy?

Fiquei completamente rendida pela história, pelas questões que o comportamento de Jean suscita, pela trilha sonora (a cena ao som de Don’t Let Me Be Misunderstood no episódio 4 é ótima). Aliás, a série tem uma das aberturas mais lindas tocando Gypsy, de Stevie Nicks. Só não digo que fica em primeiro lugar na minha lista de openings mais bonitas, porque temos a abertura imbatível do milênio, também conhecida como a abertura de Big Littles Lies.

Sim, a série tem defeitos. Como eu disse, muitos personagens são rasos: Sidney não tem tanta profundidade e é apenas aquela jovem misteriosa e sedutora, as conversas entre os outros terapeutas naquela cozinha soam forçadas e corretinhas demais, Alexis é a secretária clichê que quer seduzir o chefe, as mães da escola vão pelo caminho contrário de Big Little Lies e só para variar (#sqn) são representadas como mães de clássica média chatas, entediadas e implicantes.

Sim, dava para se ter trabalhado melhor os outros personagens. Mas foi a construção de Jean que me interessou desde o começo. E, honestamente, a superficialidade dos outros personagens não me incomodou tanto. Porque o interessante mesmo na série e explorar a personalidade de Jean. Esse é único objetivo da história.

Gypsy não é sobre outros personagens. Gypsy é sobre Jean, sobre os seus conflitos internos e a forma como ela os encara, dá vazão aos seus desejos e se relaciona com as pessoas. E também não descarto a possibilidade de que talvez os outros personagens não tenham tanta densidade e nuances porque essa era a forma que Jean os via: Alexis como a secretária interessada em seduzir o seu marido, Sidney como a jovem aventureira, as mães da escola como supérfluas e chatas.

Para sustentar uma série inteira em um só personagem, é preciso compor uma protagonista e tanto. Jean era uma protagonista e tanto e ainda tinha muito o que render e a ser analisado. Tenho um fraco por essas personagens femininas erradas (que, no fim das contas, são as mais reais e humanas), conflituosas, inconsequentes.

Reprodução/Netflix

Jean não é um modelo de conduta. Li vários críticos a acusando de ser zero carisma e difícil de convencer, mas a mim, pelo menos, ela convenceu pra caramba e se tornou uma das personagens mais interessantes e complicadas que vi esse ano. Entrou para a lista das minhas personagens preferidas.

A gente só riscou a superfície e ainda tinha muito mais a ser descoberto sobre ela. É uma pena que só pudemos acompanhá-la por uma temporada.  Eu com certeza teria fôlego para mais umas três seasons. Vou sentir falta de Jean Holloway.

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Quem escreveu isso?

Tarsila Zamami sempre quis ser profiler. Enquanto não é recrutada para trabalhar na BAU, dedica-se à sua outra paixão: entretenimento. Formada em jornalismo pela PUC-SP, acredita que é no cotidiano que estão os melhores enredos. Ama histórias. Das pessoas e das telonas. Perfeccionista, viciada em listas, maníaca por séries e apaixonada por Moleskines. Sempre quis jogar Jumanji. Para saber (quase) tudo acesse seu blog: confissoesesincericidios.com