Resenha | Xampu – Volume 1

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Uma das características mais fascinantes da crônica é o fato de se tratar de uma forma textual aparentemente simples, mas que apenas se torna interessante se proveniente de autores habilidosos. Por apresentar um olhar poético para o cotidiano, os temas são comuns, corriqueiros. Contudo, a grande sacada está em tornar o ordinário extraordinário aos olhos do leitor e são poucos os agraciados com tal capacidade. Roger Cruz é um deles e, fazendo uso dessa faculdade, entregou, em 2010, o álbum Xampu: Lovely Losers, vencedor do prêmio HQMix e publicado, na ocasião, pela editora Devir. Em 2016, a obra retornou às bancas e comic shops através da parceria entre a Panini e a Stout Club, e o primeiro volume dessa crônica oitentista regada a sexo, drogas e rock n’roll merece o investimento.

BIOGRAFIA DE UMA GERAÇÃO

Capa da edição publicada pela Panini.

Xampu narra o cotidiano de jovens roqueiros que, num apartamento, liberavam seus demônios sob o alto e bom som de um aparelho 3 em 1. A garotada que representava a geração perdida refugiava-se da rotina chata e careta e, sob o lema mencionado ao fim do parágrafo anterior, entregava-se aos alucinógenos, aos amassos e aos riffs de guitarra. Toda essa balbúrdia ganha beleza e poesia a partir do olhar nostálgico de Roger Cruz, que olha para o passado com certo saudosismo e redenção, duas das motivações que costumam permear a escrita autobiográfica. Afinal o olhar para o passado costuma ser motivado ou por saudades ou por necessidade de acertar as contas com o que ficou para trás e, de certa forma, isso se faz presente em Xampu.

Intensa, a cena roqueira paulistana no fim dos anos 1980 deixou marcas, algumas físicas, outras emocionais. Com Xampu, fica a impressão de que Roger busca resgatar as personagens que ajudaram a construir a fase mais maluca de sua vida. Nicole, Sombra, Raquel, Alex e Pedro são alguns dos nomes que são apresentados ao leitor que, ao fim deste primeiro volume, passa a ansiar por saber onde e como estão cada um deles hoje. Com isso, compreende-se a motivação de Cruz em, através da sua arte, resgatar cada uma dessas pessoas. Afinal, como bem escreve Marcelo Campos, diretor da Quanta Academia de Artes, no posfácio da HQ, “nunca evitamos as outras pessoas e tudo o que elas nos causam”. Memória, saudades e redenção: impossível não se identificar com tais temas, mesmo não tendo vivido aquela época ou frequentado aquele apartamento. Pois, por mais que algumas coisas sejam íntimas e pessoais, todas elas são movidas por sentimentos que nos tornam semelhantes, independentemente das diferenças de tempo, espaço, gostos e demais aspectos.

Não à toa, Xampu traz um Roger Cruz bem diferente daquele que fez sucesso entre a garotada nos anos 1990, quando trabalhava como artista para a Marvel Comics. Aqui, Roger abre mão do traço mais convencional e revela-se um autor com identidade própria, embora inspirado por grandes nomes dos quadrinhos. Ao aproximar sua narrativa autobiográfica da crônica, Cruz ecoa, em alguns momentos, Will Eisner (renomado quadrinista criador do personagem Spirit). A periferia paulistana dos anos 1980 é retratada com tamanha riqueza de detalhes, que em muito lembra o cuidado estético – e, em muitas páginas, a linguagem – de Eisner ao poetizar o cotidiano da Big Apple no álbum Nova York: A Vida na Cidade Grande. Para quem viveu na periferia de Sampa na época retratada por Xampu, é muito divertido sacar as referências como, por exemplo, os ônibus da CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos) e a entrada nos veículos pela porta de trás.

Dentre as personagens de Xampu, Sombra é, definitivamente, a mais trágica, cujo fim é um mistério que instiga o leitor.

Voltada para leitores adultos, em especial para quem já estava ligado no que acontecia nos anos oitenta, Xampu é uma leitura obrigatória. Deparar-se com esse gibi (eu precisava usar esse termo nostálgico) nas prateleiras é um presente a quem aprecia quadrinhos, rock e carrega no peito uma ponta de saudade da “década perdida”.

Ficha Técnica

Título: Xampu – Volume 1
Autor: Roger Cruz (roteiro e arte)
Gênero: Biografia / Crônica
Editora: Panini / Stout Club
Ano: 2016
Páginas: 80
Acabamento: Formato americano, capa cartão

Para adquirir esta e outras edições, basta clicar no logo da Panini Comics abaixo.

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Quem escreveu isso?

Formado em Letras, com especialização em Linguagem e sentido: gêneros discursivos, alterna o tempo entre dar aulas e cuidar dos textos do Mundo Blá. Possui plena consciência de que enlouquecerá um dia, mas não tem jeito: simplesmente ama muito tudo isso!