Resenha | Wolverine: O Velho Logan

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Atualmente em exibição nos cinemas, Logan introduz ao público uma faceta inédita do mutante canadense nas telas. Contudo, não é a primeira vez que o Wolverine é apresentado envelhecido. Nos quadrinhos, por sinal, é muito comum que as personagens sejam trabalhadas por roteiristas e desenhistas em arcos narrativos que se passam em diferentes momentos da existência, ora envelhecendo, ora rejuvenescendo, e muitas vezes morrendo e voltando à vida. Afinal, com anos de histórias, (re)imaginar origens e fins é uma maneira de manter as personagens vivas, atrair novos leitores e enriquecer a criatividade de seus autores. No caso do baixinho invocado dos X-Men, Wolverine: O Velho Logan é, sem dúvida, um dos melhores exercícios criativos envolvendo o super-herói e uma história moderna que já nasceu clássica.

Inspirada em narrativas distópicas como o filme Mad Max, de George Miller, e em westerns como Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood, O Velho Logan é uma HQ de forte impacto emocional, graças à violência de sua trama, que atinge em cheio o leitor, seja pelas consequências físicas sofridas pelas personagens, seja pelo aspecto psicológico presente na história. Na trama, que se passa 50 anos após um evento que culminou no extermínio dos super-heróis, Logan aposentou as garras e tornou-se um discreto e pacífico fazendeiro. Sua única preocupação é garantir o sustento de sua família e seu lar, ambos ameaçados pelo aluguel atrasado, cobrado violentamente pelos herdeiros de Bruce Banner, o Hulk. Sem dinheiro, Logan decide aceitar o convite de Clint Barton, o agora ex-Gavião Arqueiro, que, cego, precisa de auxílio para levar uma carga misteriosa até a Nova Babilônia, distrito estadunidense surgido após a nova divisão territorial promovida pelos vilões, os governantes do país. Esperando descolar a grana necessária para garantir o aluguel e a paz de sua família, Logan embarca numa jornada de autoconhecimento e aceitação, que colocará à prova o seu propósito de deixar para trás sua vida como Wolverine e a dor que o passado abriga.

Logan e Clint Barton embarcam numa perigosa jornada de autodescoberta, com um único objetivo: a sobrevivência num mundo sem esperança.

Escrito por Mark Millar e ilustrado por Steve McNiven, dupla criativa responsável por Guerra Civil, Wolverine: O Velho Logan encontra o equilíbrio perfeito entre a fruição da leitura escapista inerente às histórias de super-herói e a profundidade característica de tramas mais densas e reflexivas. Logo no início, somos introduzidos a um Logan alquebrado, cujo espaço onde vive reflete a condição árida e infrutífera de um espírito tomado pela sombra. O peso do passado e a culpa sentida por estar vivo são fardos perfeitamente representados no traço de McNiven, que carrega o corpo do mutante com marcas provenientes de uma vida sofrida, que apenas um legitimo sobrevivente seria capaz de carregar. Ao longo da narrativa, embarcamos numa espécie de road movie, onde a estrada torna-se o lugar de provações e (re)descobertas. Como um tentador, Barton testa as convicções de seu navegador e ex-parceiro nos Vingadores e, na caminhada rumo à Nova Babilônia, é também levado a repensar o que foi sua vida e a encarar consequências do passado. O leitor embarca junto e é colocado diante de uma nova América, tomada pela violência e pelo desespero, cujas lembranças da queda sofrida pelos heróis fazem parte da desoladora paisagem da Terra da Liberdade.

Repleta de reviravoltas, a história prende a atenção e não é difícil, mesmo diante do calhamaço, querer continuar com a leitura, que deve ser realizada sem pressa, muito por causa da arte de Steve McNiven. O ilustrador realiza um trabalho eficiente tanto em páginas mais contemplativas quanto nas cenas de ação, cortesia do sempre eficiente Mark Millar. Para citar um exemplo, o momento em que Logan revela ao amigo Clint Barton o motivo para a sua postura pacifista é, ao mesmo tempo, empolgante, assustador, chocante e trágico. Impossível não sentir arrepios e uma profunda tristeza diante da conclusão do relato, definitivamente o ponto alto da HQ.

Esconder as garras significa enterrar um doloroso passado banhado por sangue.

Um dos mais incríveis trabalhos realizados pela dupla Millar/McNiven, Wolverine: O Velho Logan é uma dessas obras que contribuem para a mudança de conceitos sobre os quadrinhos de super-heróis, provando que até mesmo as HQs com propostas mais comerciais são capazes de entregar pérolas recentes e novos clássicos, desde que as editoras estejam dispostas a oferecer liberdade criativa a seus autores. A história foi publicada recentemente como parte integrante da coleção oficial de graphic novels Marvel, sob responsabilidade da editora Salvat. A quem tiver interesse, a edição não é difícil de encontrar nas bancas e livrarias. Com certeza, uma leitura que vale muito a pena!

Ficha Técnica

Título: Wolverine: O Velho Logan
Título original: Old Man Logan
Autores: Mark Millar (roteiro) e Steve McNiven (arte)
Gênero: Aventura
Editora: Salvat
Ano: 2014
Acabamento: Formato americano, capa dura

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Quem escreveu isso?

Formado em Letras, com especialização em Linguagem e sentido: gêneros discursivos, alterna o tempo entre dar aulas e cuidar dos textos do Mundo Blá. Possui plena consciência de que enlouquecerá um dia, mas não tem jeito: simplesmente ama muito tudo isso!