Séries | Ingobernable: vale a pena dar uma chance?

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Finalmente fui iniciada e vi minha primeira série mexicana. A série? Ingobernable, claro. Logo que a Netflix liberou o trailer já fiquei curiosa para ver: história que mistura conspiração política, protagonista feminina forte, assassinato, correria e perseguição é um dos meus pontos fracos, raramente consigo resistir.

E, 15 episódios depois, posso dizer que todos esses ingredientes estão presentes, e ainda teve um elemento que eu não esperava que aparecesse tão forte: um quê de novela.

Com um pouco de thriller político e muito de telenovela, a história acompanha a primeira-dama Emilia Urquiza (Kate del Castillo), que decidiu deixar Los Pinos (a “Casa Branca” mexicana) e pedir o divórcio do marido, o presidente Diego Nava (Erik Hayser). Só que dias depois de sair da residência oficial, os dois têm uma discussão bem violenta e ela se torna a principal suspeita da morte dele.

Vendo que todas as evidências apontam para ela, Emilia, no auge do desespero, decide fugir. Ao longo dos 15 episódios, acompanhamos a primeira-dama tentando provar a sua inocência, escapar do governo que agora a persegue e descobrir quem foi o responsável pela morte do marido que, claro, envolve muitas razões políticas.

No começo tudo fica em aberto e as cenas iniciais são construídas para nos fazer simpatizar, torcer por Emilia e não duvidar nem por um segundo da sua inocência, mesmo sem sabermos absolutamente nada sobre ela. É só nos episódios seguintes que os flashbacks aparecem e começamos a entender o casamento dos dois, as relações políticas em que se envolveram e o que a motivou a pedir o divórcio.

Em vários momentos, a trama nos faz lembrar um House of Cards/Scandal/Marseille mexicano. A fuga e a busca para provar sua inocência nos remete a O Fugitivo, com Harrison Ford. E tem muito de 24 Horas também. Aliás, um dos episódios tem uma contagem regressiva que é impossível não associar com a série. Mas não é só isso: por misturar a residência presidencial, conspirações, tiroteios e muita ação, a gente lembra da história de Jack Bauer várias vezes. O final também lembra muito a série, mas falo sobre isso mais para frente.

No entanto, Ingobernable peca por algumas atuações e cenas meio exageradas. Logo no começo, na briga que vai definir toda a história, a discussão cruza a linha do melodrama em certos momentos – e a tempestade e os zilhões de raios caindo acentuam ainda mais esse excesso. Incomoda, mas não a ponto de querer largar, até porque ao longo dos episódios a gente vai pegando o ritmo e ficando cada vez mais envolvido.

Também é interessante ver como os Estados Unidos são retratados. Estamos tão acostumados aos roteiros americanos com Rússia, México e China como os antagonistas que é interessante ver a dinâmica oposta e ver os EUA sendo desenhados como vilões.

Como em La Reina del Sur (que inspirou a série Queen of the South nos Estados Unidos), Kate Del Castillo interpreta outra protagonista forte. Kate combina muito bem no papel e consegue desempenhar com facilidade as várias facetas de Emilia: primeira-dama, amante, mãe e um pouco de “agente secreta” para fazer as cenas de fuga e ação. Além de Emilia, há pelo menos outras 3 personagens femininas centrais fortes também. Para completar o empoderamento feminino, são mulheres, Las Siete Cabronas de Tepito, quem comandam um dos bairros mais violentos da cidade. Um grupo de mesmo nome realmente existe no México e inspirou a referência na série.

A trilha sonora é um capítulo à parte. A música instrumental é linda e carrega toda a dramaticidade mexicana. O problema é que, nos primeiros episódios, eles a tocam o tempo inteiro, em cenas que nem são tão dramáticas assim. Ah! Viciei completamente na música de abertura, Me Verás. Já com a abertura, no começo, estranhei a mistura de cenas da trama com aquela dança/flutuada, mas no final já estava adorando. #VolúvelMesmo

Sobre o final: cheio dos cliffhangers, não poderia ser mais 24 Horas possível. Ok, ele revela quem é uma das pessoas que estavam por trás do assassinato de Diego que, aliás, dava para sacar lá pela metade da história, já que segue a receita clássica: personagem bem próximo da protagonista, mas isento de qualquer suspeita.

Mas essa revelação abre margem para mais um monte de perguntas e, sério, todos os arcos ficam em aberto deixando a gente morto de curiosidade para querer ver a próxima temporada. É meio exagerada, dá umas arrastadas e está longe de ser perfeita, mas sabe ser envolvente e com certeza darei play na segunda temporada assim que lançar. A renovação não foi confirmada, mas as chances da Netflix dar o sinal verde são grandes. Difícil vai ser esperar até 2018 para ver o que acontece com Emilia e Cia.

Curiosidade

A princípio, a série era para ser toda gravada no México, mas por conta dos problemas de Kate Del Castillo com o governo mexicano, boa parte teve que ser gravada nos EUA.

Você não lembra da história?

Em 2014, ela foi contatada pelos advogados de El Chapo – um dos mais poderosos traficantes do mundo que, na época, estava preso – e eles disseram que o narcotraficante gostaria que Kate produzisse um filme sobre sua vida e estava disposto a lhe dar todos os direitos sobre a produção. Em 2015, El Chapo fugiu da cadeia e entrou em contato com a atriz. Após os dois trocarem mensagens, eles marcaram um encontro secreto – com Sean Penn também presente, o que deu origem ao artigo assinado por ele na Rolling Stone americana em janeiro de 2016. A polícia rastreou as conversas e El Chapo acabou sendo preso meses após o encontro.

Depois disso, Kate começou a ser manchete de vários jornais, as mensagens que trocou com El Chapo foram publicadas e ela se viu no meio de uma investigação sobre um possível envolvimento financeiro entre ela e o traficante. Em uma longa entrevista à Diane Sawyer da ABC News, ela disse que as mensagens foram tiradas de contexto e que não recebeu nenhum centavo de El Chapo. Como a investigação ainda está em andamento, Kate decidiu não voltar ao México para as filmagens por medo de ser detida pelo governo de lá. Assim, todos os momentos em que ela aparece na trama (ou seja: muitos) foram gravadas nos EUA, onde mora agora. Todas as cenas em que Emilia aparece em lugares famosos do México, como Los Pinos, foram filmadas com uma dublê.

Ela também não esteve presente no lançamento da série no México, principal país público-alvo da trama. A entrevista foi toda feita por videoconferência. Kate, inclusive, em várias entrevistas que tem dado para divulgar a série diz que se identifica muito com Emilia e que, apesar de não estar fugindo como a personagem que interpreta, também está tentando provar sua inocência. Ela também agradeceu muito à Netflix por não a terem substituído e terem topado fazer toda essa complicada logística para as filmagens.

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Quem escreveu isso?

Tarsila Zamami sempre quis ser profiler. Enquanto não é recrutada para trabalhar na BAU, dedica-se à sua outra paixão: entretenimento. Formada em jornalismo pela PUC-SP, acredita que é no cotidiano que estão os melhores enredos. Ama histórias. Das pessoas e das telonas. Perfeccionista, viciada em listas, maníaca por séries e apaixonada por Moleskines. Sempre quis jogar Jumanji. Para saber (quase) tudo acesse seu blog: confissoesesincericidios.com