Resenha | Destinos e Fúrias: definitivamente fúrias

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Juro que cogitei largar Destinos e Fúrias (Intrínseca, 2015, 368 p.) nas primeiras páginas. Mas minha teimosia falou mais alto. Medo, na verdade. Sempre acho que vou perder alguma coisa incrível se abandonar uma série ou livro – às vezes é verdade; na maioria das vezes, não. Porém, mais do que teimosia em insistir ou medo de, no fim, a história se revelar muito boa, a verdade era que queria entender por que Obama disse que este foi o melhor livro que ele leu em 2015.

E, no final, entendi. Na metade, aliás.

Edição publicada no Brasil pela Intrínseca.

O livro definitivamente não é chato, contudo, não dá para negar, chega a ser cansativo em alguns momentos (principalmente na primeira parte). Mas a riqueza com que ele trabalha certas questões faz a leitura valer muito a pena. Por mais que precisemos dar uns respiros, também sentimos uma necessidade enorme em continuar observando a vida de Lotto e Mathilde. A história é basicamente essa: observar a vida do casal. E, acredite, isso não é pouca coisa.

O grande trunfo de Destinos e Fúrias é a passagem de tempo. Essa sensação voyeurística de acompanhar a vida dos dois. A vida com o passar dos anos. Vemos, ano após ano, festa após festa, os amigos diminuindo. A transição dos 20 para os 30 e dos 30 para os 40 e tantos. A euforia juvenil dando lugar a uma frustração. A certeza de um futuro glorioso sendo trocada pelo receio dele nunca chegar. As diferentes etapas do casamento. O que antes era qualidade passando a ser defeito. A paixão, o tesão, o companheirismo, as brigas, a sinceridade, as frases nunca ditas, as verdades nunca reveladas.

Uma certa melancolia e acidez pairam o livro inteiro. Uma sensação de desconforto. Os comentários irônicos e cruelmente sinceros deixados pelo narrador, entre colchetes no meio dos parágrafos, dá um tom ácido irresistível. Mas é, finalmente, na segunda parte (Fúrias) que as coisas começam a ficar boas. Muito boas. Pelo menos comigo foi assim. A linguagem muda completamente: em Destinos, vemos uma voz intensa, cheia de entusiasmo e altos e baixos. Em Fúrias, objetividade e uma certa frieza imperam. Destinos é sobre Lotto, a perspectiva dele. Fúrias é sobre Mathilde, a visão dela.

Lamento informar, mas não dá para pular direto. A gente precisa mergulhar na cabeça e no comportamento de Lotto para depois ter, enfim, a chance de desvendar e entender Mathilde. Lotto é o artista do casal, aparentemente a alma criativa, a euforia, a personalidade excêntrica. Levamos a primeira metade inteira do livro achando que a história será sobre a mente artística de Lotto: o processo criativo, as crises e um egoísmo e machismo implícitos – e muito presentes. Contudo a grande história, ao menos para mim, está em Mathilde, a quem a primeira metade inteira nos faz pensar o quão servil e boa esposa ela se tornou. “Não pode ser só isso, pode? Personagem simples e condescendente assim?”, fiquei pensando o tempo inteiro.

E, ainda bem, não era só isso.

É em Fúrias (adoro ela ter ficado com Fúrias e Lotto com Destinos) que desmitificamos Mathilde. Lotto é a personalidade que enxergamos claramente a história toda. Ele está ali, transparente, para todos os amigos. Ele está visível em todas as peças de teatro que escreveu. O mistério está nela. Ela é a história não contada. Ela é a história que nem o próprio marido conhecia. E, no fim, a verdadeira protagonista é quem pareceu ser a coadjuvante toda a primeira metade do livro. Por trás da fiel e boa esposa, há camadas e camadas de histórias, de um desejo de vingança, de amargura e fúria. Muita fúria.

A autora Lauren Groff.

É disso que mais gostei na obra: o quanto ela trabalha a questão de que, mesmo em uma relação de décadas, podemos não conhecer quem está ao nosso lado, que todo esse tempo só vimos o que o outro quis que víssemos. O desconhecimento dos fatos é melhor ou pior? Não saber nos faz amar mais? Saber mudaria esse amor?

O trabalho da autora Lauren Groff merece aplausos. Ela conseguiu trazer elementos de mitologia grega em uma narrativa cotidiana, discutir questões de gênero, além de brincar com os termos “destino” e “fúria” muito bem ao longo da história. Me forcei a ler em dois dias e, nossa, ainda bem que não abandonei logo nas primeiras páginas como cogitei no começo. Destinos e Fúrias não é aquela leitura ágil e fácil. É um livro que mexe. É uma obra que pede dedicação. É forte, sutil, complexo. No fim, fica claro que Destinos não existiria sem Fúrias. Assim como Lotto não existiria sem Mathilde. Por trás de um grande homem, algumas vezes, há uma grande mulher. Por trás de uma grande mulher sempre há ela mesma.

Livro: Destinos e Fúrias
Autora: Lauren Groff
Editora: Intrínseca
Páginas: 368
ISBN: 9788580579147
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Quem escreveu isso?

Tarsila Zamami sempre quis ser profiler. Enquanto não é recrutada para trabalhar na BAU, dedica-se à sua outra paixão: entretenimento. Formada em jornalismo pela PUC-SP, acredita que é no cotidiano que estão os melhores enredos. Ama histórias. Das pessoas e das telonas. Perfeccionista, viciada em listas, maníaca por séries e apaixonada por Moleskines. Sempre quis jogar Jumanji. Para saber (quase) tudo acesse seu blog: confissoesesincericidios.com