Crônica | O Mundo Espera Tudo da Noite

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Eu adoro bar, boteco, barzinho, música ao vivo, vinho e bate-papo com amigos. Tem mais variações do mesmo tema: paquera, happy hour, chopp gelado, cuba, cerveja, porção de amendoim e batata-frita.

Não, eu não sou uma bêbada, viciada ou boêmia. Apenas acho que sair de casa simplesmente pra ir ao seu barzinho preferido com amigos, beber um pouco e dar risada é uma das melhores coisas da vida. Muita coisa boa acontece nessas noites. Não sei se por estarmos todos ali só pra conversar e rir despretensiosamente, pelo consumo de álcool, ou pelo ambiente em si, uma noite em um bar pode ser mágica.

Muita coisa interessante em minha vida já aconteceu ou começou em um bar. Descobri grandes amigos, percebi que velhos colegas de trabalho, sérios e responsáveis, se tornavam hilários, engraçados e interessantes depois de algumas cervejas. Como também já notei que amigas companheiras de almoços e compras não sabem se comportar na mesa de um bar – ficam chatas, maçantes, isso quando não ficam olhando para o relógio toda hora, ou ameaçando pular no pescoço do cara da mesa ao lado, como se ele pudesse lhe salvar do tédio.

É isso, há parceiros pra tudo nessa vida. E pra minha mesa só convido pessoas que sabem ouvir uma boa música, discutir um filme inteligente, rir de si próprio, beber sem dar vexame, trocar ideias sem se alterar, se divertir sem ser escandaloso. Também não gosto de compartilhar meu copo e minha noite com pessoas que não sabem dividir a atenção, causos, conta e que ainda reclamam dos sagrados 10% do amigo garçom.

Não aprecio gente que vai ao boteco pra caçar, arrumar pretê ou só paquerar. Isso me cansa, soa como sacrilégio. Tem coisas melhores pra se fazer ali: rir de histórias antigas, colocar a vida em dia com os amigos e ouvir MPB. Tudo tem seu tempo e seu lugar.

A noite ferve e pulsa cultura. A noite tem figuras interessantes e próprias, que você nunca conheceria em uma pizzaria ou em uma boate.

É por esses ilustres desconhecidos que a vida noturna fica mais interessante. Gostaria de destacar duas dessas figuras, duas que nunca estiveram sentadas em minha mesa, mas tornaram a vida em bares muito mais rica. A primeira é meu avô, um espanhol legítimo e boêmio, que com sua poesia e música encantou uma cidade. Ele foi embora cedo, mas deixou saudades e até hoje seus amigos fazem serenatas regadas a muita cuba pra ele no cemitério em que ele finalmente se rendeu ao sono e dormiu. A outra figura foi um poeta, um andarilho (dizem que tinha família e dinheiro, mas abandonou tudo, sem ninguém saber o porquê) que pintava os muros de uma cidade cinza com poesia viva e vibrante. O nome dele era Gentileza, ou foi assim que ficou famoso. Eu não o conheci pessoalmente, mas já tomei muita cerveja com pessoas que o tiveram sentado em sua mesa pelo simples prazer de ouvir pérolas de sua sabedoria popular. Marisa Monte se rendeu e fez uma canção pra ele, que me emociona cada vez que ouço.

E se um dia eu estiver em uma mesa de um bar, com alguns bons amigos (ou meu amor), tomando uma em homenagem à noite e tocar essa música, saberei que, em algum lugar, essas figuras dizem “amém” pra magia que só vivemos em um bar.

Making of: tomando um chopp, ouvindo “Gentileza”, da Marisa Monte. “O mundo é uma escola, a vida é um círculo, amor palavra que liberta já dizia o Profeta.”

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Quem escreveu isso?

Jornalista, redatora, com especialização em comunicação interna e MBA em Marketing, Dani é uma apaixonada pelas letras. Em 15 anos trabalhando na área, ela já foi coordenadora de comunicação de uma grande empresa, editora de duas revistas customizadas e de variedades, colunista cultural de jornais e criou várias campanhas publicitárias. Hoje é sócia da Parla, Donna!, uma agência de comunicação e marketing, onde continua exercendo sua criatividade e assinando com personalidade os conteúdos que cria. Gastronomia, viagens, livros, filmes, decoração, pizza, temakis, vinho e seus cachorros são algumas de suas paixões.

  • Dani Bertolami

    Concordei muuuuito, sou dessas de mpb, conversa e cerveja tb!

    • Daniele Rodrigues Globo

      Que bom.. menos funk e mais “Gentileza”…