Crítica | Rei Arthur: A Lenda da Espada

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No final do século passado, o então aspirante a diretor Guy Ritchie demonstrava todo o seu potencial com o excelente Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, de 1998. Escrito pelo próprio Ritchie, a trama intercala diversos subplots, que têm como ponto em comum a conectividade com os quatro personagens principais: Eddy (Nick Moran, de Harry Potter e as Relíquias da Morte: Partes 1 e 2), Sabão (Dexter Fletcher, de Wild Bill), Bacon (Jason Statham, de Velozes e Furiosos 8) e Tom (Jason Flemyng, de X-Men: Primeira Classe). Anos mais tarde, a fórmula foi repetida em Snatch: Porcos e Diamantes.

Com baixos orçamentos, as produções de Ritchie se diferenciavam por suas histórias envolventes e seus personagens caricatos, como o pugilista cigano Mickey O’Neil (Brad Pitt, de Aliados), apenas para citar um exemplo. Mas algo mudou em sua carreira e ele sucumbiu à máquina de fazer dinheiro hollywoodiano, optando por produções megalomaníacas com orçamentos astronômicos. Roteiro, ao que parece, passou a virar elemento secundário, dando mais valor aos aspectos visuais. Pois foi exatamente esse o erro de Rei Arthur: A Lenda da Espada (King Arthur: Legend of the Sword, EUA, 2017).

A história do rei Arthur já é bastante conhecida e difundida pelo mundo da sétima arte. Vamos à lista de alguns atores que já tiveram a oportunidade de empunhar a Excalibur: Clive Owen, Sean Connery, Nigel Terry, Richard Harris, entre outros. Até mesmo o pessoal do Monty Python entrou na onda e criou uma paródia que fez enorme sucesso.

O filme começa com as tropas do rei Uther (Eric Bana, de Livrai-nos do Mal) enfrentando as do mago Mordred (Rob Knighton, de Anti-Social). Após uma batalha sangrenta, Uther consegue derrotá-lo com a Excalibur. O que ele não imaginava é que, tempos depois, o seu irmão, Vortigern (Jude Law, de Sherlock Holmes), o trairia. Uther e sua esposa, Igraine (Poppy Delevingne, de Elvis & Nixon), são assassinados, mas Arthur escapa. Após ser adotado, acompanhamos o crescimento do jovem órfão dentro de um bordel. Essa sequência é muito rápida e mostra, de maneira sucinta, como Arthur (Charlie Hunnam, da série Filhos da Anarquia) passou a exercer uma liderança natural em sua comunidade, protegendo-os de bárbaros, arruaceiros e quem mais ousasse importuná-los.

Com roteiro adaptado pelo próprio Ritchie, em parceria com Joby Harold (de Awake: A Vida por um Fio) e Lionel Wigram (de O Agente da U.N.C.L.E.), conseguimos enxergar traços de genialidade que fizeram parte da filmografia do diretor, como, por exemplo, nas cenas em que passado e presente e, posteriormente, presente e futuro são alternados, sempre tendo Arthur como interlocutor. O recurso, neste caso, foi usado com maestria, porque as imagens acompanham exatamente a narração de Arthur. Se ele para e retrocede a sua história, por exemplo, a imagem o acompanha. Outro recurso bastante interessante é o uso da câmera em 360º nas batalhas, oferecendo-nos a possibilidade de enxergamos sob diversos ângulos, e a imagem mostrada pelo alto da cidade, dando-nos a visão de seus becos e vielas, como se estivéssemos jogando um MMORPG.

Se, por um lado, os aspectos técnicos são primorosos, por outro, o uso excessivo de flashbacks literalmente tira a paciência do espectador. A todo momento, voltamos ao início do filme, à batalha de Uther contra Vortigern, e isso realmente cansa. O desenvolvimento do personagem principal também é muito superficial. Como disse anteriormente, a infância é mostrada muitíssimo rápido e, quando chega o momento de seu treinamento, quando podemos presenciar o amadurecimento e a aceitação de seu destino, o mesmo acontece: cenas superficiais com cortes rápidos. Uma decisão que levou horas de projeção a ser tomada é resolvida em cinco minutos, talvez nem isso.

Apesar de ser citado no filme como responsável pelo envio da maga (Astrid Bergès-Frisbey, de Alaska), Merlin sequer aparece. E o Lancelot, então? Esse nem citado é. A equipe que ajuda Arthur nessa empreitada é formada por Bedivere (Djimon Hounsou, de A Lenda de Tarzan), o arqueiro Bill (Aidan Gillen, da série Game of Thrones), George (Tom Wu, da série Marco Polo), Percival (Craig McGinlay) e Back Lack (Neil Maskell, da série Humans) e o seu filho, Blue (Bleu Landau, da série EastEnders).

Apesar de Charlie Hunnam estar muito bem como protagonista, Rei Arthur: A Lenda da Espada falha ao tentar produzir um filme épico das mesmas proporções de O Senhor dos Anéis. Bastante pretensioso, o longa foca mais na ação do que no roteiro, relega personagens importantes e coloca todas as suas fichas na impressão causada pelos efeitos visuais. A impressão deixada é de que a produção pode se tornar uma das maiores flopadas de 2017. A conferir.

Rei Arthur: A Lenda da Espada estreia nos cinemas nesta quinta-feira, dia 18 de maio.

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Quem escreveu isso?

Jornalista de ofício, enxerga o cinema como fonte de inspiração, de libertação e, sobretudo, de reflexão. O cinema muitas vezes nos provoca, permite com que a gente saia do cômodo lugar de um senso comum para avaliarmos o mesmo assunto sob perspectivas diferentes, fazendo com que adotemos novas maneiras de se pensar. Espero, neste espaço, poder oferecer a vocês, leitores, informações e análises críticas sobre o fantástico mundo da sétima arte.