Crítica | Planeta dos Macacos: A Guerra

210 0

Planeta dos Macacos: A Guerra (War For The Planet of the Apes, EUA, 2017) é um filme que, sem reservas, abraça a primeira palavra de seu título original (“War”, que significa “Guerra”). Em sua abertura, a produção traz um grupo de soldados em uma floresta, com apelidos em seus capacetes, marchando em direção ao inimigo no melhor estilo do clássico Platoon, de Oliver Stone. Nas duas horas seguintes, outros filmes do gênero são indiretamente referenciados, como o também clássico Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, especialmente na maneira com que o diretor Matt Reeves (Cloverfield – O Monstro) utiliza a figura de seu vilão, quase como um Coronel Kurtz ensandecido em pleno coração da selva, com sua cabeça raspada e sua filosofia fatalista. Ao fazer isso, Reeves não está copiando os filmes citados, mas sim homenageando-os, transformando uma franquia sobre símios sencientes em algo além, ecoando histórias de guerra e observando o lado mais escuro da humanidade através das lentes de um blockbuster. Realmente não é pouco.

Após os traumáticos eventos que serviram de núcleo narrativo para Planeta dos Macacos: O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes), Caesar (Andy Serkis, mais uma vez impecável em seu trabalho de captura de movimento) e seus companheiros símios tornaram-se criaturas quase que lendárias: tratam-se dos animais sobre os quais os soldados falam quase sempre com a voz baixa, em secreto. Ninguém sabe exatamente onde Caesar está ou quais são seus planos, apesar do público aprender relativamente rápido que seu foco primário é a sobrevivência. É sempre um aspecto interessante da narrativa desta trilogia o fato de que Caesar parece sempre procurar a paz, mas acaba sendo atraído de volta ao conflito pelas ações da espécie humana, que não aceita que uma espécie possa ser superior. É exatamente isso o que acontece quando um personagem conhecido apenas como “O Coronel” (o sempre ótimo Woody Harrelson, um de meus atores preferidos) ataca o território símio, inclusive matando alguns membros da família de Caesar. Agora, o macaco vem a conhecer outra emoção humana que frequentemente leva à tragédia: a vingança.

Planeta dos Macaccos

A maneira com que Planeta dos Macacos: A Guerra se desenrola a partir deste ponto é relativamente simples, especialmente em se tratando de um blockbuster de verão americano. Um dos muitos elementos brilhantes do roteiro de Mark Bomback (do citado Planeta dos Macacos: O Confronto), em parceria com o próprio Reeves, é sua perspectiva. Com exceção da citada sequência inicial, o público passa o filme todo acompanhando Caesar e alguns companheiros símios em uma jornada rumo a uma misteriosa base humana. No caminho, o grupo encontra uma garota muda e a batizam de Nova (Amiah Miller) e a menina junta-se a eles na viagem.

Todo o portentoso miolo do filme, em alguns momentos, lembra até um western moderno, mesmo que embebido um uma roupagem de filme de guerra. Novamente, o foco da perspectiva de Reeves aqui é notável. Enquanto diversos outros filmes teriam intercalado sua narrativa entre os personagens de Caesar e do Coronel, Reeves apoia o roteiro no macaco, uma vez que toda a identificação do público está em Caesar. O espectador o acompanha em sua jornada, sabendo apenas o que ele sabe, numa decisão que se revela um tremendo acerto por parte de Reeves, já que, quando o Coronel de Harrelson volta à narrativa, sua força e poder destrutivo garantem ainda mais potência ao filme.

Reeves, que vem se revelando um diretor cada vez mais em domínio de seu ofício, trabalha com maestria todos os elementos da produção, com a ajuda da excelente fotografia do veterano Michael Seresin (do clássico O Expresso da Meia-Noite), que insere uma rica e natural paleta de cores na produção, que foge do que estamos acostumados a ver em grandes produções. Mesmo em um filme repleto de CGI, é maravilhoso o trabalho de Seresin em capturar o mundo natural ao redor de Caesar, com suas árvores, água e neve. Quem também colabora demais para o excelente resultado da produção é o genial compositor Michael Giacchino (das animações da Pixar Up: Altas Aventuras e Os Incríveis), que possivelmente entrega o melhor trabalho de sua carreira. Giacchino emula os scores de outras produções do gênero guerra e também de blockbusters dos anos setenta e oitenta, com composições que se revelam essenciais para o transcorrer do filme. Uma boa parte da produção não contém nenhuma trilha sonora, o que também é raro em superproduções, tornando o score de Giacchino ainda mais significativo, quando utilizado.

Como convencer a fatia do público que pode estar relutante em assistir a um filme sobre macacos falantes de que estes três filmes transcenderam seu conceito e se tornaram uma das melhores trilogias cinematográficas de nosso tempo? Antes de ser uma ficção-científica, Planeta dos Macacos: A Guerra, antes de qualquer coisa, reflete o momento em que a raça humana se encontra hoje, em 2017. É um filme sobre luta e vingança. Sobre perda e apegar-se ao pouco que se tem para seguir em frente. O filme reflete o ódio e a violência dos dias de hoje e, como cada vez mais, nós, como espécie, respondemos com medo e guerra ao que não entendemos. Tudo isso e muito mais é exposto na produção que, apesar de um pouco longa (principalmente devido a seus múltiplos finais), é memorável ao espectador, tornando-se aquele tipo de filme que melhora mais cada vez que você discute sobre ele.

E claro, não podemos esquecer o fato de que Planeta dos Macacos: A Guerra, em seu papel de arrasa-quarteirão, é muito divertido. O filme tem humor, incríveis sequências de ação, especialmente em seu ato final, e encerra a trilogia do macaco Caesar de maneira recompensadora e emocionante. Olhando para a face de Caesar, me lembrei um pouco do olhar soturno do grande Clint Eastwood em seus antigos faroestes, onde ele observava o horizonte sabendo que poderia ser a última vez, e permitindo que fantasmas do passado habitassem sua memória. Foi quando constatei que Caesar se tornará um personagem icônico, que será descoberto por gerações futuras, tendo sua grandeza merecidamente reconhecida.

Planeta dos Macacos: A Guerra estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 03 de agosto.

Total 2 Votes
0

Tell us how can we improve this post?

+ = Verify Human or Spambot ?

Quem escreveu isso?

Eduardo Kacic é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. Criador do extinto blog Gallo Movies, colaborou também com os blogs Formiga Elétrica e Filmes e Games. É colaborador do Humanoides, e agora veste a camisa do Mundo Blá! com muito orgulho. É São-Paulino doente, marido apaixonado da Lígia Oliveira e pai do Pedro Ceni. Sim, o sobrenome é em homenagem ao goleiro.