Crítica | Okja

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“O gemido do bezerro poderia ser choro humano / Aproxima-se a faca gritante / Esta linda criatura deve morrer / Uma morte sem razão / E morte sem razão é assassinato”. Essa é a primeira estrofe da canção “Meat is Murder”, dos Smiths, pertencente a um álbum homônimo de 1985. Lançada há 32 anos atrás, a reflexão contra o consumo de carne e aos maus-tratos de seu processamento não diminuiu – muito pelo contrário, já que o vegetarianismo e veganismo cresce a cada dia mundialmente.

Parte desta discussão é tomada em Okja (Coreia do Sul/EUA, 2017), longa original da Netflix que foi lançado no último dia 28. Um dos maiores destaques no Festival de Cannes e indicado à Palma de Ouro, o filme é dirigido por Bong Joon-Ho (O Hospedeiro) e traz um elenco de peso, que conta tanto com nomes já conhecidos, como Tilda Swinton (Doutor Estranho), Jake Gyllenhaal (Animais Noturnos), Paul Dano (Um Cadáver Para Sobreviver) e Giancarlo Esposito (Breaking Bad), quanto um time de atores que ainda estão sendo explorados, como Lily Collins (Simplesmente Acontece), Steven Yeun (The Walking Dead) e a atriz sul-coreana Seo-Hyeon Ahn, que rouba olhares com uma atuação forte e destemida.

Mija, personagem de Seo-Hyeon, vive humildemente com seu avô em uma montanha cercada por uma floresta e tudo de mais bonito que a mãe natureza pode oferecer – o que atribui pontos ao longa e se torna um das visões mais agradáveis do filme, graças à belíssima fotografia pelo cineasta Darius Khondji, que já trabalhou em filmes como Se7en – Os Sete Crimes Capitais (1995) e Meia-Noite em Paris (2011).

Mija toma conta de Okja, uma porca gigantesca que foi enviada aos cuidados de sua família pela empresa Mirando, comandada por Lucy Mirando (personagem de Swinton), junto de uma leva com mais 25 porcos modificados geneticamente, para que crescessem mais e dessem mais lucro à sua companhia. Ao tentar levar Okja aos Estados Unidos, Mija tenta incansavelmente trazê-la de volta para seus cuidados, onde tinha uma vida livre. É nessa jornada que encontra Jay (Paul Dano) e sua organização que busca libertar animais de situações de maus-tratos. Nasce desse encontro uma parceria (indesejável) que busca desmascarar a empresa e a reputação de Mirando; além de resgatar outros animais que seu grupo mantém presos em um porão, fruto de seus experimentos.

Tudo bem que os porcos gigantescos não existem e tenham sido criados por computador, mas os animais comovem por representarem situações que realmente ocorrem em abatedouros. Okja nos alerta sobre problemas enfrentados por esses animais (que, além dos maus-tratos, sofrem com condições de vida insalubres e desconfortáveis, sacrifícios desumanos e ingestão de químicos transgênicos para que tenham mais carne consumível) e dos humanos (como a normalização desse processo, manipulação midiática, a fissura pelas redes sociais em prol de benefícios e a ganância corporativa).

A cena destaque do filme é o grande campo onde outros porcos são mantidos presos, isolados do mundo por uma grande cerca elétrica. A situação em que se encontram, além da forma como são tratados pelos humanos, também não é meramente ficção, assim como os traços de veracidade ali também não são pequenos. Animais são retirados de seu habitat natural para serem mantidos em pequenos porões, jaulas ou alguns hectares com destino à morte todos os dias; porém, essa realidade é vendada e ignorada pelos humanos, uma reação muito pior do que simplesmente esquecer.

Tanto o time dos ativistas como dos magnatas, em questões de atuação, são os que ajudam a construir esse aviso em formato de filme. Gyllenhaal já tem sua marca na indústria ao escolher personagens peculiares e enredos intrigantes. Com Johnny Wilcox, seu personagem, não seria diferente. Ele entrega uma performance caricata e obscura, que pode tanto fazer rir como fazer sentir dor. Swinton segue na mesma linha – já muito preservada e conhecida por seu trabalho, sem apresentar, portanto, grandes surpresas.

Talvez o grande sucesso de Okja, além de tudo isso, tenha sido possível graças à Netflix, já que um filme como esse sendo colocado em um circuito convencional talvez não conseguisse tanto destaque por seu enredo ativista e sério. O que pode ser muito bom para o streaming, mas nem tanto aos cinemas. Uma pena que as telas grandes tenham perdido a chance de exibir a grande floresta que Mija pode chamar de lar.

Um aviso amigo: o filme tem uma cena pós-créditos que pode ser considerada um plot-twist que vai além das telas.

Okja está disponível no serviço de streaming Netflix.

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Quem escreveu isso?

Jornalista (em formação, mas ainda assim) paulistana de 19 anos. Escreve sobre filmes, séries e, fora do Mundo Blá, crises existenciais. Gosta de vinis, livros, Instagram e de aprender cada dia mais sobre o mundo do cinema.