Crítica | Homem-Aranha: De Volta ao Lar

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Creio não estar equivocado quando afirmo que o Homem-Aranha é o mais popular super-herói da Marvel Comics. A identificação com o grande público é imediata e é curioso observar que ela se estende por todas as faixas etárias. Por isso, não é de se estranhar o interesse de grandes marcas, dos mais variados segmentos, em explorar a imagem do Aracnídeo, que talvez só encontre rival páreo em popularidade no Superman, o grande paladino da DC Comics.

No cinema não é diferente. Dona dos direitos cinematográficos envolvendo o Cabeça-de-Teia, a Columbia Pictures, hoje propriedade da Sony Pictures, cumpriu a façanha de levar as histórias do herói às telonas em 2002. Dirigido por Sam Raimi (The Evil Dead) e protagonizado por Tobey Maguire (Seabiscuit – Alma de Herói), Homem-Aranha foi um sucesso arrebatador e contribuiu para que, na década passada, os filmes inspirados em histórias em quadrinhos se firmassem como um gênero cinematográfico.

Após a fria recepção ao razoável Homem-Aranha 3 (2007), que provocou desentendimentos nos bastidores e uma perda de rumo daquela que seria uma série cinematográfica, a Sony – já no comando da Columbia – decidiu que o melhor era recomeçar. Assim, O Espetacular Homem-Aranha chegou aos cinemas em 2012 com tudo novo: Andrew Garfield (A Rede Social) assumiu o controle da teia e Marc Webb (500 Dias Com Ela) do set de filmagem. Mais pela popularidade da personagem do que pela qualidade do filme, o longa fez um relativo sucesso, o que gerou uma continuação recebida com pouca empolgação, indicando uma desconfortável falta de identificação entre os filmes do herói e o público.

Entre aliados e inimigos, o Homem-Aranha coloca seu valor à prova.

E foi o público que, de certa maneira, apresentou a solução para o problema ao repetir em fóruns e em conversas nas redes sociais uma simples pergunta: “por que a Sony não devolve o Homem-Aranha para a Marvel?”. Esse singelo questionamento dos fãs mais antenados pode ter sido um dos fatores que levaram ao acordo entre a Sony Pictures e a Marvel Studios (que explicaremos numa futura postagem) que, por sua vez, resultou em Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, EUA, 2017), aguardadíssima produção que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 06 de julho.

DO JEITO CERTO

Dois fatores justificam a expectativa em torno de Homem-Aranha: De Volta ao Lar. O primeiro tem a ver com este ser o filme do Homem-Aranha pela Marvel Studios, que desde 2008 estabeleceu-se como produtora de respeito e apresenta, a cada projeto, um zelo tremendo com a adaptação da sua galeria de personagens para as telas. Alternando longas excelentes (Guardiões da Galáxia, Capitão América 2) com outros apenas medianos, (Thor, Vingadores – Era de Ultron), a Marvel prova que conhece a sua audiência e, independente da qualidade fílmica, atribui às personagens um tratamento digno e respeitoso. Logo, imaginar como o Homem-Aranha seria trabalhado pela Marvel nos cinemas passou a tomar conta do imaginário dos leitores das HQs. O segundo tem a ver com a amostra apresentada em Capitão América: Guerra Civil (2016), onde o Amigão da Vizinhança aparece roubando o escudo do Capitão (e todas as cenas em que aparece), já como resultado do acordo entre os dois estúdios. Interpretado por Tom Holland (O Impossível), a nova versão do Peter Parker cumpriu a função de deixar a plateia ansiando por mais e preparou o caminho para o novo longa-metragem.

Ao produzir, pela primeira vez, um longa protagonizado exclusivamente por sua estrela maior, a Marvel opta por não arriscar e entrega com Homem-Aranha: De Volta ao Lar um filme que respeita, de A a Z, a fórmula que vem sendo reproduzida constantemente e garantindo o sucesso de seus filmes. Isso pode ser decepcionante para os críticos da “receita de bolo”, mas o uso da fórmula é compreensível, tendo em vista a necessidade de recuperar a imagem do Aranha diante do público de cinema, arranhada após três longas pouco inspirados.

Tom Holland: o cara certo para o trabalho!

Embora não seja um filme de origem que se inicia com a descoberta dos poderes (aqui o Homem-Aranha já está em atividade e a fonte do seu poder é apenas mencionado rapidamente em um diálogo), De Volta ao Lar parte da percepção de que o herói nova-iorquino pode ser mais do que simplesmente um bom vizinho. Passando-se alguns meses após a batalha dos heróis retratada em Guerra Civil, a trama desenvolve-se a partir da espera de Peter Parker por um novo chamado de Tony Stark (Robert Downey Jr., de O Juiz) para ajudar os Vingadores. Numa tentativa de convencer seu mentor de que merece um lugar entre os Heróis Mais Poderosos da Terra, Parker mantém constante contato com Happy Hogan (Jon Fraveau, de Chef), motorista e homem de confiança do bilionário, reportando o seu dia a dia, como num blog.

Em paralelo, acompanhamos a rotina de Adrian Toomes (Michael Keaton, de Birdman), um homem que encontra nos resquícios da Batalha de Nova York (clímax de Os Vingadores, de 2012) uma fonte de renda ao recolher a sucata alienígena resultante do evento. Quando é impedido de trabalhar por uma misteriosa agência governamental, Toomes une-se aos seus colegas de trabalho e com a tecnologia que já haviam recolhido decide criar armas para promover assaltos a banco e abastecer os bandidos locais. Liderando sua equipe nesse novo ramo, Toomes dá origem ao Abutre, uma séria ameaça tecnológica que chama a atenção do Homem-Aranha, que encontra no embate contra o vilão a oportunidade de provar o seu valor.

HIGH-TECH E NOSTALGIA OITENTISTA

Apesar do lado fantástico promovido pelo aspecto quadrinístico, é no lado humano que De Volta ao Lar encontra a sua verdadeira essência. Mais do que um filme de super-herói, o longa é uma história de amor adolescente inspirada nos longas produzidos por John Hughes nos anos 1980. Há inclusive uma referência explicita a Curtindo a Vida Adoidado (1986), que facilmente deixará um sorriso no rosto dos mais nostálgicos. O interesse romântico de Peter Parker aqui é Liza (Laura Harrier, de Os Últimos 5 Anos), uma linda e inteligente garota que faz parte do grupo de alunos que representam o colégio em gincanas estudantis, grupo ao qual Parker também faz parte.

Liz (Laura Harrier) e Peter (Tom Holland): paquera com sabor de anos 80.

Tanto a trama adolescente quanto a narrativa super-heróica desenvolvem-se de maneira padrão, sem, contudo, subestimar a inteligência do espectador. Além de ótimos diálogos fornecido pelo roteiro (escrito por um batalhão de pessoas, uma tendência incômoda da Hollywood de hoje), o carisma dos atores ajuda demais a narratividade. Holland é o Peter Parker perfeito, pela primeira vez interpretado por um adolescente, o que confere momentos interessantes que exploram essa característica, em especial por conta de sua voz. Michael Keaton entrega com o seu Abutre um vilão bem construído, que consegue ser simultaneamente charmoso e ameaçador. Levando em consideração que este é sempre um aspecto problemático nos filmes da Marvel, De Volta ao Lar ganha pontos consideráveis aqui. A Tia May de Marisa Tomei (O Lutador) também gera ótimos momentos, muito por conta de sua aparência jovial (e extremamente atraente). Laura Harrier convence como interesse romântico, já que possui uma beleza delicada que certamente condiz com seu papel, sem, porém, fazer dela a dama constantemente em perigo (isso acontece apenas uma vez), o que torna a personagem bem agradável. Por fim, Jacob Batalon surpreende ao atribuir à personagem Ned, amigo de Parker, um bom alívio cômico e Robert Downey Jr. é sim um coadjuvante de luxo, já que Tony Stark/Homem de Ferro aparece em momentos pontuais, sem roubar o protagonismo do longa, como era temido por conta das campanhas de divulgação do filme.

Outro aspecto muito legal e que merece destaque está no uniforme tecnológico do Homem-Aranha, que insere o protagonista perfeitamente no contexto do século XXI. Inclusive a própria armadura ganha status de personagem e, graças à voz de Jennifer Connelly (Uma Mente Brilhante), lembra, na interação com Peter Parker, a relação entre Tony Stark e Jarvis, nos primeiros filmes do Homem de Ferro.

Os nerds também amam: Ned (Jacob Batalon) e Peter (Tom Holland) observam as minas.

VERTIGEM, CADÊ VOCÊ?

Mas Homem-Aranha: De Volta ao Lar não é um filme perfeito. Dirigido por Jon Watts, cineasta de pouquíssima expressão, percebe-se que falta personalidade ao produto final. Isso não é novidade no MCU, no entanto, levando-se em consideração que alguns dos melhores longas da Marvel apresentam como traço marcante a visão de seus realizadores (Joss Whedon, Os Irmãos Russo e James Gunn não me deixam mentir), um pouco de ousadia não faria mal a esta nova produção do Cabeça-de-Teia. Além disso, as cenas de ação genéricas deixam a desejar, o que é um pecado se levadas em consideração as habilidades do herói. Aqui, um trabalho de câmera mais inventivo poderia proporcionar sequências de ação imersivas, quase que uma obrigação em época de cinemas 3D e IMAX. Os efeitos especiais, em muitos momentos, aparentam uma artificialidade que hoje não é aceitável, evidenciando uma pós-produção apressada. Outra falha evidente, mas que também já é recorrente nas produções do estúdio, é o excesso de humor. Algumas piadas funcionam muito bem, mas a recorrência na tentativa de fazer rir acaba por esbarrar em falhas que comprometem um pouco a narrativa.

Apesar de tudo isso, Homem-Aranha: De Volta ao Lar é o melhor filme da personagem desde o adorado Homem-Aranha 2 (2004). Comparar o novo longa com as produções de Sam Raimi é, todavia, injusto, levando-se em consideração os diferentes momentos em que as produções chegaram às telas. Enquanto o longa de Raimi é um ponto fora da curva numa época em que filmes de quadrinhos não eram garantias de sucesso, De Volta ao Lar traz uma das mais emblemáticas personagens dos comics ao lugar de destaque, numa ocasião em que o gênero já se encontra devidamente estabelecido nas telas. Com certeza, temos aqui um ótimo ponto de partida; porém ainda resta a sensação de que a Marvel pode fazer mais e melhor com o Aranha num breve futuro.

Homem-Aranha: De Volta ao Lar estreia nesta quinta-feira, dia 06 de julho.

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Quem escreveu isso?

Formado em Letras, com especialização em Linguagem e sentido: gêneros discursivos, alterna o tempo entre dar aulas e cuidar dos textos do Mundo Blá. Possui plena consciência de que enlouquecerá um dia, mas não tem jeito: simplesmente ama muito tudo isso!