Crítica | Dunkirk

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Direto e ambicioso, frio, bombástico e esmagador, este épico da Segunda Guerra Mundial, Dunkirk (Reino Unido/Holanda/França/EUA, 2017) apresenta o melhor e o pior das tendências do genial diretor Christopher Nolan. Mas as qualidades superam, por muito, os pontos fracos da produção, uma vez que, saindo do cinema, é impossível não lembrar a impactante experiência que o filme proporciona. Nem tanto um “filme de guerra” e sim uma história de desastre e sobrevivência, a nova obra de Nolan retrata milimetricamente a evacuação de soldados britânicos que foram emboscados nas praias de Dunkirk, na França, no final de maio e começo de junho do ano de 1940, quando um cerco performado pelos alemães havia praticamente empurrado as Forças Aliadas para o mar.

Se você fosse fazer uma lista de todas as fobias que pudesse recordar, este Dunkirk o ajudaria a lembrar de inúmeras delas. Medo de altura, fogo, afogamento, ficar confinado a espaços pequenos, escuridão, abandono; todos são representados na fotografia cristalina e aterrorizante do suiço Hoyte Van Hoytema (de Interestelar, também do diretor Nolan). E se você tiver a oportunidade de assistir ao filme em uma sala no formato IMAX, garanto que a experiência será ainda mais asfixiante e opressiva. Graças ao formato e ao trabalho de Nolan e Hoytema em utilizar o bom e velho 70mm na concepção da obra, Dunkirk traz um estilo clássico, bem comum nos filmes da década de 60 e 70: quadradão e alto, ao invés de largo, o tipo de filmagem aumenta consideravelmente o nível de tensão da produção.

O filme será exibido em um formato mais largo na maioria dos cinemas aqui do Brasil, mas mesmo assim acho improvável seu impacto ser diminuído por conta disso. Trata-se de uma verdadeira porrada cinematográfica, que detona uma bomba atrás da outra no espectador, com pouquíssimas pausas para que o público possa contemplar o que está sendo mostrado. Assistir à Dunkirk é sentir-se sitiado, enclausurado. O filme engloba um período onde a força militar alemã estava em ascendência e a esperança pela sobrevivência do Reino Unido começava a desvanecer. A história da batalha de Dunkirk já foi contada em filme, na produção homônima dirigida por Leslie Norman, em 1958, e também mencionada em outras produções do gênero, mas o longa de Nolan soa diferente, principalmente pela maneira com que foi feito.

Nolan, que também escreveu o roteiro da produção, situa o espectador no meio da ação desde a primeira tomada e o deixa lá durante todos os 106 minutos (neste que é um dos filmes mais curtos da filmografia do diretor, acostumado a produções de longa duração). O diretor expõe seus personagens o tempo todo com um certo orgulho perverso, isolando-os em tomadas amplas em meio a multidões ou incorporando-os à fumaça ou à água. Algumas sequências transcorrem por minutos sem um diálogo audível, o que é uma raridade dentro do cinema comercial feito com um orçamento parrudo como o de Dunkirk. É ainda mais raro nos filmes do próprio Nolan, que tem a tendência de clarear suas narrativas através de bastante exposição verbal. Nolan e Hoytema seguram alguns takes por um tempo considerável, o suficiente para deixar o público considerar tudo o que está na tomada e decidir onde seus olhos irão assentar-se.

É interessante a maneira com que Nolan aborda seus personagens centrais. O diretor em nenhum momento procura aprofundar-se nos dados biográficos de qualquer um deles e a importância desses indivíduos está em seus papéis no campo de batalha. Por muitas vezes, peguei-me um pouco confuso sobre quem era quem em cena, mas tal confusão ocorre por vontade do diretor e não por algum erro de continuidade ou de narrativa. Este método utilizado pelo cineasta ajuda a dar a sensação de que cada um desses homens está lutando por sua sobrevivência e, ao mesmo tempo, pela vida do companheiro e do organismo de batalha Aliado como um todo.

Temos o piloto interpretado por Tom Hardy (de Mad Max: Estrada da Fúria), que tenta destruir aeronaves alemãs antes que estas possam dizimar seus companheiros em terra. O vencedor do Oscar Mark Rylance (do ótimo Ponte dos Espiões) interpreta um civil determinado a pilotar seu barco até Dunkirk, para assim salvar o máximo de soldados que puder. Um trio de soldados, um deles interpretado pelo estreante Harry Styles (ex-membro da boy band One Direction), correm pelas ruas da cidade francesa em direção à praia, na esperança de serem resgatados antes de serem capturados ou mortos pelos soldados inimigos. Alguns dos personagens do filme, assim como o piloto interpretado por Hardy, o voluntário interpretado por Rylance e até mesmo o comandante personificado por Kenneth Branagh (protagonista do vindouro remake de Assassinato no Expresso Oriente), não recebem nomes. Outros são identificados apenas por sua aparência ou ações, como por exemplo o personagem de Cillian Murphy (o vilão Espantalho de Batman Begins), que fica conhecido apenas como “o soldado da tremedeira”, já que ele foi um dos resgatados do mar congelante pelo personagem de Rylance.

Contudo, a persistência da anonimidade dos personagens do filme incomoda um pouco, especialmente no que diz respeito aos numerosos personagens secundários. Outro ponto que deixa a desejar, por incrível que pareça, é o score musical do fantástico maestro alemão Hans Zimmer (colaborador mais que habitual do diretor), que é utilizado em excesso na produção. Em um filme de guerra tão realista e visceral quanto Dunkirk, a música, por diversas vezes, atrapalha um pouco o resultado, diminuindo a tensão quando apenas os efeitos-sonoros da batalha já seriam mais do que suficientes para garantir altos níveis de imersão em um mundo de agonia.

Entretanto, como era de se esperar, Dunkirk é mais um acerto na carreira de Christopher Nolan. Um tremendo acerto, diga-se de passagem. É um filme que evoca a admiração, mesmo que se utilize de um cenário de imensa tristeza e dor constante, que só as histórias de guerra são capazes de retratar. Mesmo os aspectos do filme que não me agradaram totalmente (eles existem, sim) fazem parte de um todo. Dunkirk é uma produção de visão e integridade executada em escala épica, dramatizada por máquinas, corpos, água do mar e fogo. Um filme que merece ser visto, discutido e que, assim como toda a filmografia de Nolan, é nada menos do que inesquecível.

Dunkirk estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 27 de julho.

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Quem escreveu isso?

Eduardo Kacic é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. Criador do extinto blog Gallo Movies, colaborou também com os blogs Formiga Elétrica e Filmes e Games. É colaborador do Humanoides, e agora veste a camisa do Mundo Blá! com muito orgulho. É São-Paulino doente, marido apaixonado da Lígia Oliveira e pai do Pedro Ceni. Sim, o sobrenome é em homenagem ao goleiro.