Crítica | Carros 3

538 0

Dentre tantas animações espetaculares da Pixar (hoje uma joint-venture com a powerhouse Disney), uma das que menos me apetece é Carros, lançada em 2006. Mesmo não sendo uma das minhas preferidas, a animação é muito gostosa de se assistir e sua mensagem vai muito além do que, a princípio, parecia ser apenas uma ação da Disney para vender carrinhos aos milhões para a criançada. Ambientado em uma espécie de universo paralelo, habitado somente por veículos, o filme conquistou a criançada (especialmente os meninos) e boa parte do público adulto.

Em 2011, entretanto, a Pixar cometeu o maior erro de sua breve história até hoje: Carros 2. Essa sim uma animação oportunista e mercenária, completamente ausente de qualquer tipo de objetivo que não fosse a comercialização desenfreada de brinquedos com a marca Carros. O público e crítica perceberam a jogada e a Pixar terminou por amargar sua pior performance na bilheteria e, com certeza, a pior recepção da crítica para uma de suas produções.

Agora, seis anos depois, o estúdio volta a abordar sua franquia automobilística com este Carros 3 (Cars 3, EUA, 2017) e se o resultado está longe de ser o mesmo do primeiro filme da série, ao menos também está bem distante de ser o lixo comercial que foi o segundo exemplar da franquia. Carros 3 não é brilhante, mas ao menos é evidente a humildade da Pixar em reconhecer o erro cometido seis anos atrás, pela maneira honesta com que retrata a terceira aventura do carrinho de corrida vermelho Relâmpago McQueen.

Carros 3

Na aventura – que oblitera completamente os eventos do péssimo segundo filme –, McQueen (voz do ator Owen Wilson no áudio original) continua a mil por hora nas pistas, disputando (e vencendo) diversas corridas. Suas vitórias, entretanto, começam a minguar quando surge um novo concorrente, Jackson Storm, um dos veículos da nova geração de carros de corrida, movidos a mais alta tecnologia. E Storm é apenas o primeiro, já que, rapidamente, todos os carros da geração de McQueen vão perdendo espaço para os modernos e avançados carros da nova geração.

Durante uma corrida, nosso herói Relâmpago força sua potência ao limite e, ao invés de superar Storm, acaba sofrendo um terrível acidente, que o coloca em uma longa jornada de recuperação e treinamento, onde ele será auxiliado pela carrinho-fêmea Cruz Ramirez (voz da atriz e cantora de origem mexicana Cristela Alonzo no áudio original, e da atriz e modelo Giovanna Ewbank na dublagem brasileira).

Voltando às origens da franquia, o diretor estreante Brian Fee aproveita bem o roteiro simplista da produção, que valoriza a mensagem da superação e também da relação mestre-pupilo, que aborda a figura do carrinho McQueen desde sua origem (quando era um aluno do carrinho das antigas, Doc Hudson), até sua nova jornada, quando ele se encontra na inusitada posição de professor. A relação entre McQueen e a corajosa Cruz Ramirez (mesmo entendendo o conceito da animação Carros, ainda me pergunto o que exatamente diferencia os carros “macho” dos carros “fêmea”, mas anyway…) move a narrativa da produção e arranca alguns bons momentos, como a divertida corrida na lama que a dupla acaba sendo obrigada a participar.

A qualidade visual da produção, como em qualquer outra animação Pixar, dispensa comentários e, mais uma vez, o colorido exagerado encanta crianças e adultos e acabam valorizando a produção como um todo. O humor também marca presença na produção, mas de maneira bastante juvenil, o que vai agradar aos mais jovens.

Resumindo, Carros 3 não vai revolucionar nada dentro do selo Disney/Pixar de qualidade e nem mesmo inova dentro da franquia à qual pertence. Entretanto, é ao menos uma produção honesta e ciente de seus princípios, que procura realmente colocar algo na cabeça das crianças, ao invés de impulsionar os pequeninos a sair da sala de cinema puxando os pais pelas mãos na direção da loja de brinquedos mais próxima.

Carros 3 estreia nos cinemas na próxima quinta-feira, 13 de julho.

Total 6 Votes
0

Tell us how can we improve this post?

+ = Verify Human or Spambot ?

Quem escreveu isso?

Eduardo Kacic é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. Criador do extinto blog Gallo Movies, colaborou também com os blogs Formiga Elétrica e Filmes e Games. É colaborador do Humanoides, e agora veste a camisa do Mundo Blá! com muito orgulho. É São-Paulino doente, marido apaixonado da Lígia Oliveira e pai do Pedro Ceni. Sim, o sobrenome é em homenagem ao goleiro.