Crítica Teatro | Bezerra de Menezes – O Doutor Fala de Si

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Séculos atrás, a medicina era muito diferente da qual conhecemos atualmente. Havia uma ligação entre a medicina e a religião, sendo que a segunda, inclusive, estava inserida na grade de ensino de diversos cursos de graduação superior relacionados às ciências exatas. Mas, com o tempo, foi ocorrendo a separação. Um dos pensadores mais influentes que questionava a interferência da igreja na ciência foi o francês René Descartes, que fincou os alicerces do racionalismo, movimento que viria a questionar diversos dogmas seculares. Inclusive, para aqueles que quiserem conhecer mais acerca da história do filósofo, matemático e físico, sugiro que assistam ao filme Descartes, dirigido por Roberto Rossellini (nomeado ao Oscar em 1950, por Paisà).

Talvez possamos afirmar que o ponto definitivo de ruptura tenha ocorrido no século XIX, auge da racionalidade científica, que levou à separação dos aspectos relacionados à subjetividade humana, o que inclui o espiritismo, tema central da peça Bezerra de Menezes – O Doutor Fala de Si, que conta a história do médico Adolfo Bezerra de Menezes.

Com direção de Shirlei Moura, a peça começa com um breve prólogo narrado pelo próprio Bezerra de Menezes (Roberto Mansini), sempre acompanhado de perto pelo espírito de uma pessoa que já foi bem próxima ea le (Fabs Nunes). O pequeno palco do Espaço Elevador não impede o uso da criatividade para o aproveitamento de cada centímetro, como a escada que dá acesso ao urdimento, por exemplo, por onde somos apresentados ao médico pela primeira vez. Nesta cena, é interessante notarmos que Bezerra desce calmamente para o palco, podendo ser interpretado como uma mensagem simbólica, do homem que veio do plano espiritual para o terrestre para compartilhar a sua história.

Cartaz de divulgação do espetáculo.

Quando passou a sofrer de uma grave doença no estômago, um amigo recomendou a Bezerra que procurasse um centro espírita. Após seguir as recomendações oferecidas no centro, sua dor passou. Desde então, passou a estudar cada vez mais a doutrina, tendo Allan Kardec como o seu principal mentor.

De trás das coxias, surgem os demais atores, que interpretam tanto papéis de personagens do período do século XIX quanto contemporâneos, o que denota a versatilidade no trabalho de atuação dos mesmos. A atriz Jailza Peguim, por exemplo, interpreta a mãe de Bezerra de Menezes e, posteriormente, uma mulher chefe de família.

O trabalho de cenografia e figurino também foi bastante competente, assim como o de iluminação, essencial para dar mais ênfase a certas cenas, como, por exemplo, a do jornalista interpretado por Luiz Gustavo Alvarenga, focado por uma luz vermelha, simbolizando o mau.

Bezerra de Menezes pregava valores como a benevolência e a caridade, enxergava a cura como algo que ia muito além da questão física e isso fez com que fosse odiado por alguns, mas amado por muitos, deixando uma legião de seguidores. Por mais que a ciência mereça o seu devido valor e reconhecimento na história, ela não é capaz de explicar tudo. Existem coisas que estão além da nossa compreensão, capazes de preencher uma lacuna emocional, nos enchendo de paz, amor e união.

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Quem escreveu isso?

Jornalista de ofício, enxerga o cinema como fonte de inspiração, de libertação e, sobretudo, de reflexão. O cinema muitas vezes nos provoca, permite com que a gente saia do cômodo lugar de um senso comum para avaliarmos o mesmo assunto sob perspectivas diferentes, fazendo com que adotemos novas maneiras de se pensar. Espero, neste espaço, poder oferecer a vocês, leitores, informações e análises críticas sobre o fantástico mundo da sétima arte.