Crítica | Aliados

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Sou fã do trabalho do diretor Robert Zemeckis. No entanto, quem não é? Afinal, o cineasta é o responsável por algumas obras definidoras do cinema atual, como a atemporal trilogia De Volta Para o Futuro (Back to the Future, 1985 a 1989) e suas dobradinhas com o astro Tom Hanks, nos impecáveis Forrest Gump: O Contador de Histórias (Forrest Gump, 1994) e O Náufrago (Cast Away, 2000). Estes apenas para citar alguns. Da escola do mestre Steven Spielberg, Zemeckis sempre manteve um pé no fantástico ou ao menos no inusitado em suas obras. Por isso, de certa forma é uma surpresa assistir a este convencional drama de guerra Aliados (Allied, Reino Unido/EUA, 2016), uma produção que foge bastante ao que estamos acostumados a ver no cinema de Zemeckis, mas que assim como a filmografia do diretor, é dotada de inegáveis qualidades.

Com certeza, a maior qualidade está na dupla de protagonistas da trama, o astro Brad Pitt e a vencedora do Oscar Marion Cotillard, ambos entregando performances que, se não são memoráveis, passam bem longe de comprometer. Ambientado no turbulento ano de 1942, durante o auge da Segunda Guerra Mundial, Aliados traz Pitt como o espião canadense Max Vatan que, atuando sob disfarce no Marrocos, é designado para uma última missão de guerra ao lado da bela espiã francesa Marianne Beauséjour (Cotillard), a quem não conhece. Para que a missão possa ser bem-sucedida, Max e Marianne devem se passar por marido e mulher e, aos poucos, é claro, um sentimento verdadeiro começa a surgir na relação entre os dois. Um ano se passa e, agora casados de verdade, Max e Marianne parecem finalmente desfrutar de alguma paz, com uma real esperança para o futuro. Entretanto, o destino parece ser contra a união dos dois, uma vez que Max é informado por seus superiores de que existem suspeitas de que sua esposa seja, na realidade, uma espiã alemã.

Apesar da premissa um tanto banal e do desenrolar supostamente previsível (além de sua primeira hora um tanto tediosa), o robusto roteiro do especialista Steven Knight (do espetacular Senhores do Crime, 2007) ganha bastante força na segunda metade da produção, quando abandona um pouco o tom de drama de guerra e adentra as terras do suspense dramático, onde se sai nitidamente melhor. A produção é grandiosa, com inacreditáveis tomadas amplas, de longa distância, como por exemplo nas sequências que se passam no deserto do Marrocos, assim como uma caprichada reconstituição de época, apoiada por efeitos-visuais de primeira linha, que ajudam bastante na construção dos gigantescos cenários do filme, num efeito bem típico do cinema de Zemeckis.

Contudo, é quando aborda seu tema de maneira mais íntima que Aliados ganha pontos, colocando em prática a velha máxima do “inimigo íntimo” e focando nos devastadores efeitos da dúvida na cabeça do protagonista interpretado por Pitt, que pode ou não estar dormindo ao lado do inimigo. Pitt é, inclusive, o grande destaque da produção, correspondendo nas sequências dramáticas e saindo-se muito bem em algumas pontuais sequências de ação da produção, bem executadas por Zemeckis. Cotillard entrega uma interpretação um tanto tímida, no entanto seu papel é consideravelmente ingrato, já que sua personagem é o foco da dúvida que permeia tanto a cabeça de seu marido, como a cabeça do espectador.

Para apreciação do público, Zemeckis e Knight amarram muito bem seu filme, com excelentes e tensos vinte minutos finais, que oferecem uma conclusão sólida e bastante dura, porém dramaticamente recompensadora para o espectador.

Resumindo, Aliados não figura entre os grandes filmes de Robert Zemeckis. No entanto, entrega o que promete. Trata-se de uma produção que prende a atenção e suscita constantemente a dúvida na cabeça do espectador, além de brindar o público com sua carismática, talentosa e entrosada dupla de protagonistas.

Aliados estreia nos cinemas hoje, dia 16 de fevereiro.

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Quem escreveu isso?

Eduardo Kacic é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. Criador do extinto blog Gallo Movies, colaborou também com os blogs Formiga Elétrica e Filmes e Games. É colaborador do Humanoides, e agora veste a camisa do Mundo Blá! com muito orgulho. É São-Paulino doente, marido apaixonado da Lígia Oliveira e pai do Pedro Ceni. Sim, o sobrenome é em homenagem ao goleiro.