Crítica | A Cabana

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No ano de 2013, o estúdio Summit Entertainment, que pertence à Lionsgate, adquiriu os direitos de adaptação do best-seller A Cabana (The Shack), do escritor canadense William P. Young, lançado em 2007. Na época, o livro já havia sido traduzido para 39 idiomas e vendido mais de 10 milhões de cópias somente nos Estados Unidos.

Essa pessoa que vos escreve, apesar de não seguir nenhuma religião, cresceu segundo os preceitos do cristianismo, por influência dos pais. Mas sempre fui uma pessoa bastante questionadora, gostava de contrapor os ensinamentos bíblicos ao da ciência. Por volta de 2012, mais ou menos, por influência de alguns amigos que leram e me recomendaram, li A Cabana.

A história desconstrói a imagem difundida da Santa Trindade e até mesmo de sua hierarquia, colocando todos no mesmo patamar. Aquela imagem que tínhamos de um Jesus Cristo branco, de cabelos longos e loiros e olhos azuis foi trocada por uma figura de traços árabes, olhos escuros e roupas contemporâneas. Deus, num primeiro momento, se apresenta na imagem de uma senhora negra deveras afável. E, por fim, o Espírito Santo, personificado em uma moça de traços asiáticos.

Tanto no livro quanto no filme, acompanhamos a trajetória espiritual de Mackenzie Allen Philips (Sam Worthington, de Avatar), um homem de família presbiteriana que se distancia de Deus após o sequestro e assassinato de sua filha, Missy (Amélie Eve, debutante em longas-metragens, mas que pode ser vista na 4ª temporada de When Calls the Heart, série da Hallmark Channel). Após um convite misterioso para retornar à cabana onde acharam vestígios de sangue e o vestido de sua filha, em um local isolado nas montanhas, ele tem o seu grande encontro e inicia o processo de aprendizagem que envolve a aceitação da perda, o perdão e, por fim, a redenção.

O longa foi produzido por Gil Netter, que já tem grandes obras adaptadas em seu currículo, como As Aventuras de Pi (Life of Pi, 2012) e Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009). Quanto à direção, ficou por conta de Stuart Hazeldine (Exame, 2009). Mas um dos principais destaques do filme deve ser creditado a Ray McIntyre Jr., responsável pelos efeitos visuais de filmes como 300 (2006) e MIB³: Homens de Preto 3 (Men in Black 3, 2012). O seu trabalho em A Cabana resultou em cenas plasticamente belas, como o colorido jardim cuidado pela Sarayu (Sumire Matsubara, atriz japonesa que está participando de seu primeiro filme de língua inglesa) e a conversa de Mackenzie com Jesus (Avraham Aviv Alush, ator israelense que também está estreando em longas de língua inglesa) em um lago. Tudo isso alinhado à excepcional fotografia de Declan Quinn (de O Casamento de Rachel e Despedida em Las Vegas).

O figurino é outro ponto que dialoga bastante com o público ao longo da projeção. Na primeira parte do filme, vemos tanto Mackenzie quanto seus dois filhos mais velhos, Kate (Megan Charpentier, de Resident Evil 5: Retribuição) e Josh (Gage Munroe, de Imortais), utilizando roupas mais soturnas, contrapondo o momento em que a família vivia antes do desaparecimento de Missy.

O principal problema está justamente naquele que deveria ser o responsável por conduzir e dar mais veracidade à dor e ao sofrimento do personagem principal: Sam Worthington. Em momento algum você consegue sentir empatia pelo personagem, essa transmissão de sentimentos simplesmente inexiste. Deus (Octavia Spencer, de Estrelas Além do Tempo), ou Elousia, como queiram chamar, conseguia transmitir essa sensação de perda de uma forma muito mais genuína e convincente. O elenco secundário está muito bem no filme, incluindo a atriz brasileira Alice Braga, sobrinha de Sônia Braga, que faz uma aparição no papel da Sabedoria.

Para apreciar um filme como A Cabana, é preciso enxergá-lo sem a venda do paradigma religioso, para que seja aceita a ideia de uma nova concepção de Deus, uma entidade que, no filme, se apresenta muito mais próxima ao homem.

A Cabana estreia amanhã, dia 06 de abril, nos cinemas.

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Quem escreveu isso?

Jornalista de ofício, enxerga o cinema como fonte de inspiração, de libertação e, sobretudo, de reflexão. O cinema muitas vezes nos provoca, permite com que a gente saia do cômodo lugar de um senso comum para avaliarmos o mesmo assunto sob perspectivas diferentes, fazendo com que adotemos novas maneiras de se pensar. Espero, neste espaço, poder oferecer a vocês, leitores, informações e análises críticas sobre o fantástico mundo da sétima arte.