Cine Blá Cult | Seven: Os Sete Crimes Capitais

159 0

Uma dupla de detetives, um serial-killer, e uma conversa sobre apatia. Num determinado momento deste insuperável thriller, a dupla de detetives da polícia de Chicago, Mills (Brad Pitt, de “Clube da Luta” e “Bastardos Inglórios”) e Somerset (Morgan Freeman, da “Trilogia Batman”, de Cristopher Nolan) , conversam sobre o intrincado caso que tentam resolver. De repente, a conversa não é mais sobre a capacidade de capturar ou não o serial-killer John Doe (um brilhante Kevin Spacey, da série “House of Cards), e sim sobre a apatia, a ingenuidade, e a obrigação de cada um para fazer justiça e lutar pelo que é certo. Pouco depois, no implacável desfecho do filme, é que percebemos o peso desta conversa, e como um dos dois oficiais da lei tem sua opinião drasticamente contestada, de maneira brutal e trágica.

Seven: Os Sete Crimes Capitais (Se7en, EUA, 1995), segundo filme do diretor David Fincher (que até então dirigira apenas o mediano “Alien 3″, mas que depois viria a dirigir filmaços como o já citado “Clube da Luta” e “Garota Exemplar”), é um impecável e complexo exercício de tensão. Um filme onde não há concessões, e muito menos qualquer misericórdia com o público ou mesmo com seus personagens. Me recordo de quando fui assistir ao filme no cinema quando foi lançado, em 1995, e o silêncio na sala quando os créditos finais do filme começaram a rolar era inacreditável. Algumas pessoas sequer acreditavam que o filme tinha mesmo terminado de maneira tão crua e brutal. É esse o tipo de soco na boca do estômago que Seven carrega.

O filme, primorosamente escrito por Andrew Kevin Walker (do também ótimo “8MM: Oito Milímetros”), conta a história do jovem, impetuoso e recém-transferido detetive da polícia, David Mills, que ao chegar à chuvosa e opressiva cidade de Chicago, é posto para trabalhar ao lado do experiente e desiludido detetive William Somerset, que está a poucos dias de sua aposentadoria. O choque entre as duas personalidades tão diferentes só não é maior do que o caso que se apresenta para os dois, onde um metódico serial-killer está eliminando suas vítimas, punindo-as por terem sucumbido à algum dos sete pecados capitais, que para quem não lembra, consistem em: Gula, Cobiça, Preguiça, Soberba, Luxúria, Inveja e Ira.

Com um tema central que poderia render um thriller repleto de clichês do gênero, com perseguições, diálogos customizados, etc, Seven não derrapa em nenhum momento sequer. Nem com a entrada em cena da esposa de Mills na história (interpretada pela insossa Gwyneth Paltrow, de “Avengers” e “Iron Man”), o filme se rende aos costumes do gênero. A personagem de Paltrow é utilizada com extrema inteligência por Walker e Fincher, funcionando ao mesmo tempo como alívio e também como um triste elemento chave do filme.

O que não falta em Seven é clima. O filme é pesado, escuro, macabro e opressivo do início ao fim. Nem quando a paisagem bucólica onde se passa a sequência final do filme aparece, o clima melhora. O espectador é bombardeado o tempo todo com aquela incômoda sensação de tragédia iminente no ar. Muito desse clima efetivo para um thriller se deve às primorosas fotografia de Darius Khondji (do recente “Okja”), e à trilha-sonora do maestro Howard Shore (da trilogia “O Senhor dos Anéis”), ambas impecáveis.

As sequências que retratam as vítimas do psicopata também são de arrepiar até a medula. Principalmente as que mostram as vítimas dos pecados da gula e da preguiça (esta última sendo um verdadeiro tormento jogado na cara do espectador). Uma sequência de perseguição à pé da dupla de detetives ao psicopata também é sensacional, e mostra como todos os elementos do filme convergem com perfeição para criar a cena. Para completar o pacote, Pitt e Freeman estão excelentes. Freeman mantém a postura de sempre, compondo um personagem somente na voz e no olhar penetrante. Já Pitt, que ainda se estabelecia como um astro, teve até então sua melhor performance na carreira, no papel de um personagem explosivo, cujo descontrole emocional sela o destino do personagem para sempre.

Vale também um parágrafo sobre o insano psicopata retratado no filme. Para quem ainda não assistiu ao filme, não vou estragar a experiência entregando demais sobre o assassino. Só posso afirmar que é, em minha opinião, sem dúvida o personagem mais diabólico que vi ser interpretado no cinema. E que interpretação!

Sendo o mais direto possível, Seven: Os Sete Crimes Capitais é possivelmente o melhor thriller de todos os tempos. Lado a lado com “O Silêncio dos Inocentes” e o sul-coreano “The Chaser: O Caçador”, mas seu golpe final, este sim, é implacavelmente incomparável.

Total 1 Votes
0

Tell us how can we improve this post?

+ = Verify Human or Spambot ?

Quem escreveu isso?

Eduardo Kacic é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. Criador do extinto blog Gallo Movies, colaborou também com os blogs Formiga Elétrica e Filmes e Games. É colaborador do Humanoides, e agora veste a camisa do Mundo Blá! com muito orgulho. É São-Paulino doente, marido apaixonado da Lígia Oliveira e pai do Pedro Ceni. Sim, o sobrenome é em homenagem ao goleiro.