Crítica | Channel Zero – Primeira Temporada: Candle Cove

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Você já ouviu falar no termo creepypasta? Creepypasta é o nome dado para as histórias de terror ou lendas urbanas que são divulgadas através da internet. Esta é uma palavra em inglês, formada a partir da junção do termo “creepy”, que significa “arrepiante” ou “assustador”, com a expressão “copypaste”, que quer dizer “copiado e colado”. Sendo uma tendência que todos os dias atrai milhões de pessoas a clicarem em sites especializados no assunto, era de se esperar que tais histórias logo ganhassem o mundo do cinema e da TV.

Uma das creepypastas mais famosas da internet e que você já deve ter ouvido falar é a lenda de “Slenderman”, aquela figura absurdamente alta e esguia que usa um terno preto e não tem rosto. Pois é, a história envolvendo o tal Slenderman está ganhando um documentário, produzido pela toda poderosa HBO. Outra creepypasta de arrepiar é a chamada de “Candle Cove”, que serve como tema central da primeira temporada desta nova série de horror, Channel Zero (EUA, 2016), produzida pela rede SyFy e idealizada por Nick Antosca, roteirista e produtor de séries como Hannibal e Believe, além de produções cinematográficas como o recente Floresta Maldita (The Forest, 2016). A princípio estruturada com temporadas de seis episódios, Channel Zero promete abordar, em cada uma de suas temporadas, um diferente tema sobre lendas urbanas.

Tema desta primeira temporada da série, “Candle Cove” foi, supostamente, um programa infantil exibido durante um curto período de tempo, segundo relatos, entre 1970 e 1972. É um caso bastante misterioso, principalmente pelo fato de que várias pessoas não conseguiam ver a série, pois só viam estática no televisor, enquanto aqueles que conseguiam ver alguma coisa relatavam que o programa era muito bizarro e assustador. É claro que o caso de “Candle Cove” começou como uma creepypasta e pouco acredita-se que o programa tenha realmente existido. No entanto, há pessoas que têm recordações vívidas da série, com pequenas diferenças de relato para relato. O programa seria sobre uma garotinha chamada Janice, que imaginava aventuras ao lado de seus amigos piratas, à bordo de um navio com destino à tal Enseada da Vela, tradução livre para o título “Candle Cove”.

Na pequena cidade de Iron Hill, na década de oitenta, um grupo de crianças foi encontrado morto, de maneira bizarra. Contudo, uma das crianças, o pequeno Eddie Painter, desapareceu sem deixar vestígios. Trinta anos depois, seu irmão gêmeo, Mike (Paul Schneider, do recente The Daughter), um renomado psicólogo infantil, retorna à Iron Hill, com o objetivo de desvendar de uma vez por todas o mistério envolvendo a transmissão de um estranho programa infantil, chamado “Candle Cove”, o qual Mike acredita, com todas as suas forças, ter causado a morte das crianças e, principalmente, o desaparecimento de seu irmão.

De ritmo bastante lento, esta primeira temporada de Channel Zero é uma inusitada aproximação ao gênero horror. Por abordar justamente um tema popular na internet, um dos casos das mencionadas creepypastas, pensei que a série seguiria na linha dos clichês do estilo, para agradar a maioria do público que devora tal material: os adolescentes e jovens. Entretanto, a série utiliza-se de um tom maduro que, em nenhum momento, utiliza-se de sustos previsíveis. O compassado roteiro da série – capitaneado pelo criador Nick Antosca, em parceria com mais seis roteiristas, incluindo Don Mancini, roteirista da cinessérie Brinquedo Assassino (Child’s Play, 1988) – constrói um clima mórbido e claustrofóbico, o que garante à série uma atmosfera única, não exatamente assustadora, mas bastante macabra.

A narrativa linear mantém-se uniforme durante os seis episódios da temporada, todos dirigidos por Craig William Macneill, cujo único filme dirigido na carreira, o triste e perturbador O Garoto Sombrio (The Boy, 2015), dá uma boa ideia do tom que Macneill utiliza na direção da série. O elenco, apesar de desconhecido do público em grande parte, não compromete e até o protagonista, o limitado Paul Schneider, está bem no papel de um homem atormentado pelas feridas abertas causadas por um passado doloroso e enigmático. O grande destaque do elenco, todavia, vai para a veterana atriz irlandesa Fiona Shaw (a tia Petunia, da franquia Harry Potter), que aqui interpreta a mãe do protagonista e cuja presença exerce um papel vital no desenrolar da trama envolvendo seus filhos, tanto o que retorna para casa, como o que está desaparecido.

A série também é efetiva na maneira com que retrata o suposto programa maligno que dá nome a esta temporada da Channel Zero. O show de marionetes é visualmente bizarro e bastante macabro, e causa um certo incômodo no espectador, especialmente com o sinistro tema musical do programa. As marionetes são ainda mais funestas e algumas das criaturas que dão as caras na produção são de arrepiar a medula. Especialmente o tal “garoto dos dentes”, que consiste em uma criança cuja pele é completamente coberta por dentes humanos. Entretanto, tais criaturas e o próprio efeito de “Candle Cove” nas crianças poderiam ser melhor explorados. Apesar da ótima atmosfera tétrica da atração do SyFy, falta de fato uma abordagem mais explícita do horror e esta falta de pungência na narrativa, aliada ao ritmo lento do seriado como um todo, prejudica o ritmo geral e pode causar dispersão no espectador mais distraído.

Apesar dos problemas citados, Channel Zero: Candle Cove funciona. A série utiliza-se do terror em camadas e em nenhum momento entrega nada mastigado para o público, que passa bastante tempo se questionando sobre o quanto do que está vendo é de fato real. Com elementos sobrenaturais por muitas vezes subjetivos, a série vai na contramão da popularidade do tema por ela abordada e tal abordagem, ao mesmo tempo em que não funciona em sua plenitude, também desnorteia um pouco o espectador, e tirar o norte de seu público é um dos grandes desafios do gênero horror. O saldo final, entre creepypastas, crianças cobertas de dentes e hipnose coletiva, é positivo. Quem sabe, na próxima temporada, com uma nova creepypasta em mãos, Nick Antosca e seu time criem algo realmente assustador.

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Quem escreveu isso?

Eduardo Kacic é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. Criador do extinto blog Gallo Movies, colaborou também com os blogs Formiga Elétrica e Filmes e Games. É colaborador do Humanoides, e agora veste a camisa do Mundo Blá! com muito orgulho. É São-Paulino doente, marido apaixonado da Lígia Oliveira e pai do Pedro Ceni. Sim, o sobrenome é em homenagem ao goleiro.