Blá em Casa | Voo United 93

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Embora ocorridos há 16 anos, os atentados terroristas do dia 11 de setembro ainda estão vividamente presentes na memória de quem testemunhou o que aconteceu em Nova York, naquela manhã. Por isso mesmo, é surpreendente o resultado alcançado pelo cineasta Paul Greengrass (Capitão Phillips) em Voo United 93 (United 93, EUA/Reino Unido/França, 2006). Normalmente, é necessário um certo distanciamento temporal e histórico para que alguns fatos sejam devidamente internalizados e, objetivamente, debatidos em forma de teses, livros, filmes e demais expressões. No caso do 11/9, evento que chocou o mundo e cujas cicatrizes ainda se fazem presentes no orgulho estadunidense, esperava-se que demoraria um pouco mais até que a sétima arte fosse capaz de produzir uma obra isenta de sentimentalismos e julgamentos, podendo, paralelamente, ser cinema de qualidade e tributo às vítimas de um ataque terrorista sem precedentes na história. Tendo passado apenas 5 anos, Greengrass entrega aquela que, na opinião deste que vos escreve, será para sempre a grande referência cinematográfica para quem quiser ter uma ideia do choque sentido por todos, no amanhecer daquela terça-feira de 2001.

Voo United 93 foca, ao longo dos seus 111 minutos de duração, exclusivamente no voo que dá título ao filme, que partiu da cidade de Newark, Nova Jersey, com destino à São Francisco, Califórnia. Acompanhamos desde o embarque dos passageiros até o fatídico destino: a queda da aeronave numa área rural próxima à cidade de Shanksville, no estado da Pensilvânia. Este foi o único voo que não atingiu o alvo para o qual estava direcionado (o Capitólio, em Washington D.C.) e a causa é atribuída ao heroísmo dos passageiros que, ao ficarem cientes, por meio de telefonemas feitos aos familiares, do que estava acontecendo nos Estados Unidos (àquela altura, o World Trade Center e o Pentágono já haviam sido atingidos por três outras aeronaves), voltaram-se contra os terroristas e tentaram retomar o controle do avião.

No calor da caça a Osama Bin Laden, líder da al-Qaeda (organização terrorista islâmica, sediada no Afeganistão) e mente por trás dos atos, e sob a onda preconceituosa e xenofóbica voltada especialmente aos islâmicos e mulçumanos que tomou conta dos EUA (e do mundo), Greengrass foi feliz ao conseguir atribuir à sua produção um olhar neutro para a história, algo que ele havia conseguido fazer de maneira muito eficiente em Domingo Sangrento (2002), ao retratar o inexplicável assassinato de 13 manifestantes pacifistas por soldados britânicos, na Irlanda do Norte, em 1972. Curiosamente, a primeira cena de Voo United 93 é protagonizada pelos terroristas que, na noite anterior aos ataques, oram e fortalecem-se espiritualmente para a missão suicida. Em alguns momentos, somos lembrados de que aqueles que executaram uma ação de tamanho horror e crueldade eram também humanos, tinham dúvidas, receios e, como cada um de nós e cada passageiro dos quatro voos sequestrados no 11/9, tinham deixado pessoas que tanto amavam para trás, cegos por uma crença alienadora, capaz apenas de disseminar ódio e destruição.

Mas a predominância do foco recai sobre os norte-americanos, tanto os que estavam no voo quanto os que trabalhavam nas torres de comando, controlando o tráfego aéreo. É quando está em solo que o estilo documental de Greengrass ganha força e leva o espectador a relembrar (ou a ter uma sensação sobre) o que foi a manhã do dia 11, que passou de um dia comum a um dos mais tristes, incompreensíveis e paralisantes já vivenciados. Quase que em tempo real (o voo 93 da United permaneceu no ar por 83 minutos), somos levados a, paulatinamente, compartilhar do sentimento de confusão e perplexidade que toma conta dos controladores de voo ao perderem contato com os voos e descobrirem que os supostos sequestros marcariam para sempre a história do mundo. A verossimilhança é reforçada pela participação de profissionais que trabalhavam nos centros de controle no dia dos atentados no filme, atuando como eles mesmos. Além de contribuir para tornar os fatos ainda mais realistas, os homens e mulheres que se dispuseram a reviver o fatídico dia dedicaram o trabalho à memória dos que perderam suas vidas em 2001, fazendo da produção mais do que uma obra cinematográfica, elevando-a ao status de legítimo e respeitoso tributo.

Por falar em tributo, fica aqui a sugestão a quem for (re)ver o filme em casa: assistir ao documentário presente nos extras do DVD e do Blu-ray, Voo United 93: As Famílias e o Filme. Nele, são apresentados depoimentos de familiares dos passageiros do voo, que relatam seus envolvimentos com a produção e apresentam um pouco sobre quem foram aquelas pessoas que, de anônimas, tornaram-se heróis de uma nação. Impossível não se comover.

A coluna Blá em Casa vai ao ar às sextas-feiras.

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Quem escreveu isso?

Formado em Letras, com especialização em Linguagem e sentido: gêneros discursivos, alterna o tempo entre dar aulas e cuidar dos textos do Mundo Blá. Possui plena consciência de que enlouquecerá um dia, mas não tem jeito: simplesmente ama muito tudo isso!