Séries | Vamos falar sobre como Big Little Lies é fantástica?

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ALERTA: este texto está recheado de spoilers sobre todos os episódios da minissérie!

Já escrevi aqui no Mundo Blá sobre quando Reese Witherspoon revelou em entrevistas que, desde ganhar o Oscar de melhor atriz por Johnny & June (2006), não estava encontrando bons papéis. E, após ver atrizes brilhantes disputando uma vaga para uma personagem mediana, ela decidiu criar sua própria produtora, a Pacific Standard, para dar vida a roteiros com papéis femininos melhores.

E tem dado muito certo. A Pacific Standard foi quem produziu Garota Exemplar, um dos maiores sucessos de bilheteria de 2014 e que conferiu à Rosamund Pike uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Foi a mesma Pacific Standard quem produziu Wild, filme estrelado pela própria Reese Witherspoon e que também lhe rendeu uma indicação como melhor atriz.

Outro grande acerto da Pacific Standard , senão o maior até agora, foi co-produzir Big Little Lies.

Como já tinha lido o livro, não estava curiosa para saber quem matou, quem morreu e nem os motivos que levaram a isso. Não acreditava que eles iam mudar muito o final (e realmente não mudaram), então já sabia tudo que iria acontecer nesse sentido. E isso definitivamente não foi impeditivo para me deixar envolvida e louca pela série.

Até porque, apesar do whodunnit sempre gerar interesse, não é isso que sustenta Big Little Lies. Aliás, isso é o que menos importa na história. O que nos cativa ali é explorar as relações familiares das personagens e como uma certa hierarquia e jogos de poder se desenvolvem na Escola Pública de Monterey.

Então, se já tinha gostado muito do livro (você pode ver a minha resenha aqui), quando comecei a ver a minissérie, uau, fiquei completamente apaixonada. O livro já é ótimo, mas a produção para a TV atinge um nível ainda melhor. Ela vai além e consegue ser ainda mais profunda, divertida, provocativa e cheia de nuances (amo essa palavra e prometo me esforçar para não exagerar no uso dela no texto).

Várias personagens femininas incríveis juntas

A série é muito mais luxuosa do que o livro faz parecer. Com mansões maravilhosas da costa oeste da Califórnia, riqueza para tudo quanto é lado, paisagens paradisíacas, intrigas, rivalidade e assassinato, Big Little Lies é irresistível. Mas, definitivamente, é a quantidade e qualidade de personagens femininas que a torna incrível.

Com um elenco estelar (com destaque para Nicole Kidman, Reese Whitherspoon e Laura Dern), a minissérie não só consolida a tendência de grandes atrizes do cinema vindo para a televisão, como também traz em sua história várias mulheres densas e complexas. Aliás, foi esse um dos motivos que fizeram Reese querer produzir a história: em entrevista ao TVLine, ela disse que via muito a síndrome de Smurfette acontecendo nos sets:

“Por 25 anos, eu tenho sido a única mulher nos sets de filmagem em que trabalhei, eu não tinha outras mulheres com quem conversar. Eles chamam isso de Síndrome de Smurfette, porque ela tem milhares de Smurfs ao redor dela, mas ela é a única garota. Quem foi que deu à luz a tantos Smurfs? De qualquer forma, é tão revigorante poder passar um tempo com colegas mulheres. As coisas têm que mudar, nós temos que começar a ver as mulheres como elas realmente são. Nós temos que ver as experiências das mulheres, mesmo que elas envolvam violência, abuso sexual, sejam histórias de maternidade, romance, infidelidade ou divórcio. Nós precisamos ver essas coisas representadas. Nós aprendemos muito com a arte, como poderemos aprender com essas experiências se nunca as vemos refletidas? Eu decidi produzir Big Little Lies porque estou cansada de ver mulheres incrivelmente talentosas interpretando sempre ‘a namorada’ ou ‘a esposa’ de alguém em papeis ingratos. Eu cansei. Então é um privilégio muito grande poder chegar até essas mulheres com um roteiro pelo qual eu tenho profundo orgulho de trazer.” (Tradução: Dias de Cinefilia)

Disse tudo, né? E como é bom ver tantas personagens femininas fortes juntas.

Todas ali fogem do personagem clichê de esposa e mãe. Todas são, antes de tudo, mulheres. E todas elas sabem ser maravilhosas e detestáveis. Todas têm suas angústias, medos e prazeres. Acima de tudo, todas estão em busca de um propósito e sentido para suas vidas. E é isso que as fazem personagens tão complexas e encantadoras.

Madeline (Reese Whiterspoon) já era, de longe, a minha personagem preferida no livro e isso se manteve na minissérie. Reese está incrível no papel. Mas, confesso, Renata (Laura Dern) quase empatou com Madeline na minha preferência em vários momentos.

A versão televisiva e a atuação de Laura Dern trouxeram muuuito mais camadas para Renata que, no livro, fica como “vilã” boa parte da história e só mostra certo arrependimento e bondade no final. No livro, ela é apenas a mãe insensível que excluiu Ziggy e o que vemos dela é somente como os outros personagens a descrevem, enquanto na série ela ganha voz e podemos ver os acontecimentos também sob a sua perspectiva.

Renata tem, sim, no primeiro episódio um pouco daquele ar de superioridade esnobe como pudemos ver logo no primeiro episódio quando já assume que Jane é a babá, mas também ganhou muito mais tons, força e vulnerabilidade. Pudemos ver não só o seu lado mãe (capaz até de se humilhar para que Ammabella possa ter todos os seus amigos na festa de aniversário), mas também seu lado mulher, esposa e profissional. Para completar, a dinâmica e a rivalidade entre Madeline e Renata ficou ainda melhor – e mais divertida – na TV.

Precisamos falar sobre relacionamentos abusivos na TV

A minissérie ainda discute com mais nuances o relacionamento abusivo entre Celeste (Nicole Kidman) e Perry (Alexander Skarsgard), mostrando a diferença entre como o casamento dos dois é visto de fora e como ele é realmente dentro de casa. Pudemos ver com mais clareza o comportamento abusivo e violento de Perry e também mais sobre a mente e os conflitos de Celeste. No livro, Celeste vai à terapia sozinha desde o princípio e, ao fazer com que num primeiro momento, o casal tenha ido junto, a série nos permitiu observar um pouco mais da personalidade de Perry.

Gostei bastante que a minissérie mostrou mais sobre a paixão de Celeste pelo direito e que a volta para os tribunais para ajudar Madeline a fez perceber o quanto ela sentia falta do trabalho e precisava dele para se sentir completa. Nunca fui, admito, super fã da atuação da Nicole Kidman, mas é inegável que ela está excelente no papel. As conversas entre Celeste e sua terapeuta são um retrato importante, sincero e angustiante dos impactos da violência doméstica e, definitivamente, fazem Nicole Kidman merecer um Emmy.

A forma como a terapeuta é enfática sobre Celeste deixar Perry, documentar as agressões, ter uma testemunha, alugar um apartamento e ter tudo pronto para partir me deixou a impressão de que ela, talvez, tivesse tido uma paciente em uma situação semelhante e as coisas deram errado. Mais alguém ficou com essa sensação?

Crianças arrasando, trilha sensacional e senso de humor delicioso

E aquelas crianças? Não é só elenco adulto que dá um show na atuação, as crianças também impressionam, principalmente as que interpretam Ziggy (Iain Armitage) e Chloe (Darby Camp). A percepção de Ziggy sobre as coisas é surpreendente. A maturidade e a paixão por músicas e playlists de Chloe é encantadora e fazem Darby Camp roubar a cena em muitos momentos.

E, por falar em músicas e playlists, a trilha sonora de Big Little Lies é ótima. Ando ouvindo no repeat direto. A trilha combina muito bem e dá o tom certo para a trama.

Fiquei feliz da minissérie ter preservado o depoimento dos outros pais para a polícia como acontece no livro: de forma bem humorada, entre fofocas e comentários venenosos, esses depoimentos vão mostrando como as histórias são aumentadas e interpretadas de forma totalmente errada.

Através daqueles depoimentos, vemos como todas as personagens são julgadas e também julgam as outras: por serem a CEO de uma grande empresa ou por não trabalharem, por serem ricas demais ou por não terem dinheiro suficiente, por serem novas ou velhas demais, por serem muito bonitas ou por não serem tão bonitas assim, por passarem muito tempo com os filhos ou por passarem muito tempo no trabalho. E, verdade seja dita, nós também julgamos: aquelas casas, aquele dinheiro todo, aquele privilégio escancarado.

Para completar, o senso de humor da série é delicioso e Madeline é uma das maiores responsáveis por isso: ela descrevendo para Celeste o beijo que rolou com Joseph (Santiago Cabrera) é uma das cenas mais engraçadas ever. Gostei deles terem colocado na adaptação que Madeline teve um caso. Isso não aparecia no livro e trouxe mais uma camada para a personagem.

Já Ed (Adam Scott) e sua perfeição toda me incomodou um pouco ao longo da trama. Mais alguém achou que ele olhava de um jeito estranho para Abigail? Talvez ele não fosse tão perfeito assim, mas a minissérie não chegou a explorar essa linha. Também achei que Adam Scott não combinou muito com o papel. Por outro lado, gostei da adaptação ter deixado Nathan (James Tupper) mais babaca e não tão perfeitinho na sua versão pai 2.0 como o livro sugeria.

Sutilezas

Uma das coisas que mais gostei é que a minisérie é recheada de sutilezas. Muitas cenas marcantes na trama se destacaram pelos detalhes, entrelinhas e pequenos gestos. O choro de Madeline no carro, sozinha, depois de Jane (Shailene Woodley) ter contato sobre o estupro que sofreu, as cenas de Celeste na terapia, a conversa entre Celeste e Madeline sobre maternidade e carreira: em nenhuma delas houve uma dramaticidade exagerada ou um didatismo irritante.

A série não subestimou a inteligência do espectador e, por isso mesmo, não fez questão de explicar tudo. As respostas estavam nas entrelinhas: nos olhares, silêncios e reações que carregavam tantos significados. Muitas das melhores cenas aconteceram quando os diálogos cessavam, a música alta entrava e a gente só observava os comportamentos dos personagens.

O final e o pequeno grande segredo que as uniu

A minissérie ainda nos faz entrar naquele clima de pensar “quem era você na escola?” e nos perguntarmos com a personalidade de qual criança a gente se parecia naquela época.

Também dá para ficar se questionando qual daquelas mães a gente seria. E nos fazemos esse tipo de pergunta porque cada uma é bem diferente da outra: todas ali são mães, todas ali moram em Monterey, todas ali têm filhos na mesma série, mas cada uma delas tem profissões, personalidades, vivências e posicionamentos completamente diferentes.

E todas elas, apesar das diferenças e discordâncias (e haviam muitas), no final, terem se unido para, primeiro, defender Celeste e, depois, encobrir o assassinato de Perry e proteger uma delas foi emocionante. Foi um grande acerto da adaptação televisiva ter tirado Nathan e Ed da cena do crime e só deixado as personagens femininas.

Passamos a vida toda ouvindo que as mulheres não são amigas, que vivem competindo entre si e, no final, a série prova o contrário de uma forma maravilhosa. Naquele momento, não haviam lados diferentes: eram mulheres defendendo mulheres e aquele gesto de irmandade foi lindo.

A série só peca por ter retirado uma informação crucial: Bonnie (Zoe Kravitz) era a filha de um relacionamento abusivo e passou toda a infância vendo seu pai agredir a mãe. Essa explicação acrescentaria muito mais sentido para a personagem, sempre tão calma e centrada ao longo de toda a história, ter tido aquela reação súbita.

Também gostei que, ao contrário do livro, Bonnie não decide se entregar e todas elas, de fato, sustentam até o fim a versão criada para protegê-la. Aquele era o pequeno grande segredo que guardariam até o fim. A cena da praia contrastando com o dia da festa foi maravilhosa e emocionante. Não poderia ter fechado a minissérie de forma melhor.

Ao mesmo tempo que é ágil, forte e viciante, Big Little Lies também traz questões mais profundas que precisam ser debatidas como relacionamentos abusivos, violência, bullying, estresse pós-traumático e estupro. A série é misteriosa, irônica, provocativa, densa… e, acima de tudo, irresistível. Ainda não conheci ninguém que não tenha se apaixonado por ela.

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Quem escreveu isso?

Tarsila Zamami sempre quis ser profiler. Enquanto não é recrutada para trabalhar na BAU, dedica-se à sua outra paixão: entretenimento. Formada em jornalismo pela PUC-SP, acredita que é no cotidiano que estão os melhores enredos. Ama histórias. Das pessoas e das telonas. Perfeccionista, viciada em listas, maníaca por séries e apaixonada por Moleskines. Sempre quis jogar Jumanji. Para saber (quase) tudo acesse seu blog: confissoesesincericidios.com