Análise | 3%: A Série Brasileira da Netflix

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Depois de muito tempo de espera, a Netflix liberou 3%, primeira série original brasileira do canal, em novembro do ano passado. Os oito episódios desenvolvidos por Pedro Aguilera, com duração média de 45 minutos, despertaram olhares curiosos, tanto do Brasil como de assinantes ao redor do mundo. Apenas no canal do YouTube nos Estados Unidos e Canadá, o trailer soma mais de um milhão de visualizações.

Já pela pequena prévia, misteriosa e intrigante, percebe-se que o enredo é diferente do que geralmente temos na televisão brasileira. Afinal, o que predomina por aqui ainda são as telenovelas. De vez em quando, surgem produções de minisséries. Porém, quem começou a encomendar séries brasileiras (no formato em que assistimos hoje) foi a HBO, que produziu as séries O Negócio e Magnífica 70. A diferença com 3% é justamente o maior alcance proporcionado pela Netflix, por se tratar de uma plataforma digital.

A história retrata uma sociedade dividida entre o Ocidente, onde mora a população mais pobre e desfavorecida, e o Mar Alto, um lugar sem injustiças e com oportunidade para todos. O plot principal nessa primeira temporada foi o Processo, método utilizado para selecionar 3% de pelo menos mil jovens do Ocidente, para contribuir com o “lado de lá”, tendo a chance de uma vida justa, confortável e melhor. O Processo é, basicamente, uma junção de testes psicológicos, sociais e lógicos, que são monitorados por habitantes do Mar Alto responsáveis pela seleção.

De início, a trama se assemelha com famosas adaptações distópicas existentes de Hollywood, como a saga Jogos Vorazes. E, de fato, é. Mas isso não deve ser considerado como falta de originalidade ou até mesmo como uma ofensa (Jogos Vorazes foi uma saga bem-sucedida e bem adaptada). A verdade é que histórias que retratam mundos caóticos despertam a atenção. Parte do elenco de 3% já comentou que o enredo é um aviso para o que pode acontecer caso haja a segregação de pessoas de acordo com fatores como a meritocracia (há um debate sobre sua eficácia atualmente). O que é um assunto impressionante e importante a ser retratado, principalmente se levarmos em consideração o momento atual do Brasil.

Um dos grandes diferenciais da série é justamente a diversidade de personagens e, por consequência, de atores. O núcleo principal de personagens, formado por Michele (Bianca Comparato), Fernando (Michel Gomes), Rafael (Rodolfo Valente), Marco (Rafael Lozano) e Joana (Vaneza Oliveira), faz um retrato dos jovens da periferia brasileira que querem, de alguma forma, chegar ao “Mar Alto”, mesmo não tendo os meios para isso. Inclusive, a performance de Vaneza foi uma das que mais se destacaram, com direito até a música de Elza Soares como tema. O vilão Ezequiel, interpretado por João Miguel, é quem coordena o Processo e seus resultados – de forma, muitas vezes, cruel e equivocada. Porém, é interessante que a trama desenvolva o personagem e introduza seu lado oculto, mais “humanizado”, confundindo algumas vezes suas reais intenções na série.

O desenrolar da temporada faz bater a curiosidade e engancha a necessidade de uma continuação – a segunda temporada já foi encomendada pela Netflix. Apesar de parecer previsível nos primeiros episódios, 3% é uma história que vale a pena continuar acompanhando e torcendo para que continue tendo sucesso e, assim, se desenvolvendo cada vez melhor.

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Quem escreveu isso?

Jornalista (em formação, mas ainda assim) paulistana de 19 anos. Escreve sobre filmes, séries e, fora do Mundo Blá, crises existenciais. Gosta de vinis, livros, Instagram e de aprender cada dia mais sobre o mundo do cinema.