Cinema | A Torre Negra chega aos cinemas! O que esperar?

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“O Homem de Preto fugia pelo deserto. E o Pistoleiro ia atrás.”

Quem me conhece e segue meus textos aqui no Mundo Blá, sabe de minha admiração pelo trabalho do escritor norte-americano Stephen King, meu escritor favorito. King, como ninguém, sabe utilizar o elemento metafórico do horror para discorrer sobre qualquer tema, enriquecendo o gênero muito além do que qualquer um poderia cogitar ser possível. E dentro deste mosaico de inúmeros romances e contos que habitam o universo literário do Mestre do Horror (alcunha pela qual King passou a ser conhecido em meados dos anos oitenta), uma obra tem um peso maior do que todas as outras: A Torre Negra. Uma odisseia inspirada, segundo o próprio King, no poema Childe Roland to the Dark Tower Came, escrito pelo autor inglês Robert Browning, no ano de 1855, e também no fantástico universo de J.R.R. Tolkien, criador da saga O Senhor dos Anéis (The Lord of the Rings).

A complicada concepção da obra A Torre Negra mistura-se à própria vida do escritor, que levou, desde seus primeiros rabiscos até o lançamento do último livro, 24 anos para completar sua saga. Composta por sete livros, com mais de 4.500 páginas no total, a saga da Torre Negra acompanhou e permeou boa parte da carreira de King, inclusive seus altos e baixos, e sua quase morte, em 1999, quando foi atropelado enquanto caminhava no acostamento de uma estrada perto de sua casa, no estado do Maine. King, inclusive, diz que seu maior medo, quando chegou a pensar que iria morrer em virtude dos graves ferimentos que sofreu, foi o de morrer sem completar a saga, que viria a ser terminada cinco anos depois. O autor chegou a ser “ameaçado de morte” por alguns de seus fãs mais ardorosos, que exigiam que o escritor terminasse logo de uma vez sua obra mais ambiciosa.

Segundo as palavras do próprio King, a saga da Torre Negra é o Sol de seu universo literário, e suas outras obras são como planetas que orbitam ao seu redor. Não por acaso, o universo da Torre está pincelado em várias de suas obras, já que King utiliza-se de personagens e locações que existem em outros de seus livros. No quinto livro da saga, curiosamente, o próprio King coloca-se na narrativa, em um efeito metalinguístico e também em uma espécie de “tira-teima” entre o próprio King e seu protagonista, com qual King declarou, certa vez, carregar uma relação de amor e ódio com ele.

Para quem não conhece o núcleo central da maior criação literária de King, A Torre Negra retrata a odisseia de Roland Deschain, também conhecido como O Pistoleiro (The Gunslinger), alcunha que dá nome também ao primeiro livro da saga, lançado em 1982. Os outros livros da série são:

A Escolha dos Três (The Drawing of the Three, 1987)
As Terras Devastadas (The Waste Lands, 1991)
Mago e Vidro (Wizard and Glass, 1997)
Os Lobos de Calla (Wolves of the Calla, 2003)
A Canção de Susannah (Song of Susannah, 2004)
A Torre Negra (The Dark Tower, 2004).

Quando encontramos Roland pela primeira vez, O Pistoleiro caminha por um vasto deserto, no encalço do Homem de Preto, o único indivíduo que pode indicar a Roland o caminho para a Torre Negra, o eixo de todos os mundos. Roland existe em uma realidade paralela à nossa e seu mundo está morrendo. O Pistoleiro acredita, com todas as suas forças, que, se alcançar a Torre Negra, conseguirá reverter e salvar o seu mundo, mas para conseguir chegar lá, o protagonista terá de enfrentar uma variedade de inomináveis perigos e, ao longo de sua jornada, o determinado herói também acaba encontrando fiéis companheiros de viagem, para ajudá-lo em sua missão.

E Roland chega aos cinemas…

Quem conhece um pouco o trabalho de King, com certeza sabe que o escritor é o autor vivo mais adaptado para o cinema. Ao todo, são mais de duzentas adaptações de suas obras, para o cinema e TV, e também curta-metragens independentes. E dentre tantas adaptações visuais do trabalho de King, boas e ruins, ficava a pergunta: “E A Torre Negra? Nunca ganhará uma adaptação para o cinema?”

A verdade é que, há mais de quinze anos, diversos nomes de Hollywood, em algum momento, estiveram ligados à uma possível adaptação da menina dos olhos de King para o cinema ou para a TV. Nomes de peso como os diretores Ron Howard e J.J. Abrams chegaram a estar ligados ao projeto, mas nada nunca se concretizou. O mesmo valia para o possível protagonista da obra. Nomes como Russell Crowe e Javier Bardem estiveram bem próximos de encarnar o Pistoleiro Roland no cinema. Entretanto, também nada se concretizou.

E após a história de King quase ser finalmente adquirida pela rede ABC e ser transformada em uma série de TV em 2014, pelas mãos de Abrams, a Sony performou uma inesperada manobra e adquiriu os direitos da obra de King, decidindo, assim, por levar a história para o cinema. A princípio, Ron Howard e o roteirista Akiva Goldsman (dupla responsável pelo drama ganhador do Oscar Uma Mente Brilhante) seriam os nomes por trás do projeto. Contudo, Howard acabou desistindo e a cadeira de diretor acabou ficando para o jovem dinamarquês Nikolaj Arcel, responsável pelo ótimo drama de época O Amante da Rainha (A Royal Affair), filme dirigido em 2012 e que chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Goldsman permaneceu como o roteirista da adaptação.

Faltava então, o que todos esperavam: a escolha do protagonista. Quem seria o ator por trás de Roland Deschain? E o escolhido acabou sendo o fantástico Idris Elba (do sensacional Beasts of no Nation, 2015), para surpresa de muita gente. Infelizmente, a escolha, de início, foi muito criticada por parte do público, já que o protagonista na saga de King não é negro como Elba. Mas tal questionamento medíocre logo foi se dissipando, principalmente pelo fato de Idris inquestionavelmente carregar a presença imponente do protagonista da saga literária. Pouco depois, foi divulgado também o nome de quem interpretaria a nêmesis de Roland, o mago do mal conhecido como Homem de Preto (dentre tantos outros nomes). A escolha recaiu sobre outro excepcional ator, o vencedor do Oscar Matthew McConaughey.

Com um arrojado cineasta encarregado da direção, um roteirista tarimbado em Hollywood e uma dupla de protagonistas matadora, o universo da Torre Negra no cinema finalmente começou a tomar forma, para a alegria dos fãs do Mestre King e do próprio King que, desde o início, demonstrou total apoio ao projeto cinematográfico idealizado pelos profissionais envolvidos na adaptação.

Porém, nem tudo são flores… E agora, permitam-me a ousadia de tomar um caminho mais voltado para minha opinião pessoal sobre o projeto, escolha motivada principalmente após o lançamento do primeiro trailer oficial do filme, lançado na primeira semana de maio: tenho um certo receio com relação a esta adaptação cinematográfica. Explico:

Estamos falando de uma obra composta por sete livros portentosos, que juntos, formam um material de quase cinco mil páginas. E eu pergunto: como adaptar um material tão vasto, em pouco mais de duas horas de duração? Para minha surpresa (e certa indignação), a própria Sony já se encarregou de responder a este questionamento. A verdade é que este “primeiro” filme, que chegará às telonas em julho deste ano, é na realidade uma CONTINUAÇÃO dos eventos retratados na série de livros. Tal escolha por parte dos executivos da Sony é explicável, mas não justificável: ao abordar a odisseia de King desta maneira, o estúdio se vê livre das amarras de ter que adaptar a incrivelmente complexa e longa história de King ao pé da letra, economizando tempo e (muito) dinheiro. Esta opção de adaptação narrativa explica também o porquê do trailer do filme trazer uma energia tão distante da que está nos livros. Não me refiro ao quesito visual: a transposição da obra de King realmente ganha vida nestas primeiras imagens do filme, mas a distância narrativa entre os livros e o roteiro de Goldsman já é facilmente perceptível.

O problema principal é que, ao decidir adaptar o universo da obra de King desta maneira, a Sony arrisca-se demais, pois corre-se o risco da essência da história ser perdida, em virtude de uma outra trama que possa “caber” em 150 minutos de duração. Não tranquiliza muito também o fato do filme ter sofrido alguns atrasos em sua produção, o que forçou o adiamento por duas vezes da data de lançamento do longa nos cinemas. Após ver o vistoso e competente trailer do filme, fiquei com a nítida impressão de que toda a odisseia de Roland foi reduzida a um duelo entre o Pistoleiro e o Homem de Preto, o que, dentro do gigantesco escopo dos livros de King, é muito pouco. A própria importância da figura do Homem de Preto dentro da saga da Torre Negra é relativa, já que ele surge em algumas passagens pontuais da série de livros. Entretanto, não deixa de ser interessante ver o que McConaughey será capaz de fazer no papel.

A Sony também defende a ideia (e tenho também um pouco de receio que isso seja apenas para “passar um pano”) de uma estratégia mais ampla para abordar de maneira mais completa o universo cinematográfico da Torre Negra. O estúdio garantiu a produção de mais dois filmes sobre a saga, onde, aí sim, outros elementos do livro seriam aproveitados no longa, como a participação de alguns personagens coadjuvantes de extrema importância para a narrativa e também para o desenvolvimento do protagonista Roland. Isso até vai de encontro com a natureza cíclica da obra de King como um todo, mas e se, por acaso, o primeiro filme desta suposta trilogia for um fracasso de bilheteria? E então? Como fica?

Faço a mesma pergunta com relação a outros derivados da adaptação visual da saga, como, por exemplo, uma suposta série de TV, produzida pelo citado J.J. Abrams e que correria em paralelo com as produções cinematográficas, conforme elas forem sendo lançadas. Esta série complementaria a narrativa dos filmes e focaria na série de HQs que foram lançadas pouco depois da conclusão da saga nos livros. Os quadrinhos detalham um pouco melhor a juventude do protagonista, antes de se tornar o homem amargo que protagoniza a obra de King. Nos livros, a juventude de Roland é abordada em apenas um dos livros e as HQs complementam, de maneira interessante, a psique de Roland.

Se este crossover entre a saga cinematográfica e televisiva da A Torre Negra realmente vier a acontecer, estaremos vendo uma junção praticamente sem precedentes entre estas mídias, com exceção, talvez, de algumas poucas narrativas da powerhouse Marvel, do mago Stan Lee.

Como admirador incondicional do Mestre Stephen King e um fã confesso da saga da Torre Negra, sinto-me bastante ansioso com relação ao lançamento deste primeiro filme nos cinemas. Independente do que possa vir a ser lançado depois, desde possíveis sequências até a série de TV, torço muito para que o filme de Arcel, Elba e McConaughey realmente encontre seu vértice narrativo e consiga aproveitá-lo, em conjunção com a grandiosidade da saga repleta de mistério e fantasia, escrita em praticamente três décadas por King. Se Game of Thrones e a saga do Um Anel, criadas por outros grandes mestres como George R.R. Martin e Tolkien, encontraram tão bem seu caminho no cinema e na TV, é mais do que possível o mosaico da Torre Negra encontrar o seu. Afinal, é como o próprio Roland profere em um momento-chave, no início de sua longa jornada por seu mundo moribundo:

“Vá então. Há outros mundos além deste.”

A Torre Negra estreia nos cinemas brasileiros no dia 27 de julho de 2017. Confira abaixo o primeiro trailer:

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Quem escreveu isso?

Eduardo Kacic é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. Criador do extinto blog Gallo Movies, colaborou também com os blogs Formiga Elétrica e Filmes e Games. É colaborador do Humanoides, e agora veste a camisa do Mundo Blá! com muito orgulho. É São-Paulino doente, marido apaixonado da Lígia Oliveira e pai do Pedro Ceni. Sim, o sobrenome é em homenagem ao goleiro.