Viagem – O saque que mudou o Vôlei

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Com as primeiras imagens que surgem na tela, uma música suave acompanha perfeitamente a voz que narra um desabafo saudoso e sincero. É desta maneira, cheio de sensibilidade e agradáveis surpresas, que se desenrola o documentário título deste texto.

Dirigido por Giuliano Zanelato e produção de Rogério Zagallo, o curta reúne Renan, Willian e Montanaro, protagonistas do vôlei e responsáveis pela criação do saque “Viagem ao Fundo do Mar”, que começou como uma brincadeira e se tornou um fundamento do esporte no mundo todo.

As cenas mostram os colegas revivendo emoções e lembranças na cidade de Los Angeles, palco das olimpíadas de 1984, onde, contra os temidos Estados Unidos, o Brasil conquistou a medalha de prata: primeira da modalidade para o país. O diretor acertou em cheio quando apostou no retorno ao local, para aflorar os sentimentos dos personagens, facilmente percebidos nas falas e olhares, conferindo a fidelização idealizada ao momento que quis retratar.

O documentário também possui participações especiais do Bernardinho, Zé Roberto e do americano Karch Kiraly, tido como um dos maiores nomes do vôlei de todos os tempos.

 

Trailer

Ficha técnica:

Filme: VIAGEM – O Saque que Mudou o Vôlei
Direção: Giuliano Zanelato
Produção Executiva: Rogério Zagallo
Produtora: Gaia Produções
Ano: 2013
Formato: HD
26 minutos

 

Entenda

No início dos anos 1980, o vôlei no Brasil estava mudando de cara, deixando o amadorismo com que era praticado e passando à estrutura profissional. Com treinamentos mais intensos e uma equipe pra lá de talentosa, começa a ganhar a atenção dos próprios brasileiros que, em sua maioria, eram grandes fãs de esportes como o futebol e o automobilismo.

Em julho de 1983, num jogo amistoso contra a Rússia, no estádio do Maracanã – templo do futebol – compareceram mais de 90 mil pessoas (algo impensável para um esporte como o vôlei). Todos queriam ver as jogadas emocionantes daqueles meninos que estavam fazendo história. Com uma quadra improvisada no gramado, sob um forte temporal, o saque “Viagem ao Fundo do Mar” entrou em cena, ajudando o Brasil a vencer e trazendo a esperança de que podiam fazer mais.

E assim, o Brasil chegou à final nos jogos olímpicos de 1984. Com o emprego do saque “Viagem” ao longo de todo o campeonato, o esporte reforçou suas projeções internacionais e se tornou referência.

O documentário foi produzido para o projeto “Memória do Esporte Olímpico”, que busca contar, com curtas de 26 minutos, histórias marcantes do esporte brasileiro. Nele, o diretor Zanelato quis mostrar o ponto de vista dos três personagens responsáveis pelo impacto e alterações no curso desse esporte.

Entrevistas

O Mundo Blá conversou com o diretor do documentário Giuliano Zanelato e com os ex-atletas Renan e Willian. Confira:

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(Da esquerda para a direita: Willian, Giuliano e Renan)

 

Entrevista com Giuliano Zanelato
Mundo Blá: Você é fã de esportes em geral, ou tem algum específico?

Giuliano: Em geral. Gosto mais de alguns esportes como basquete, vôlei, mas se tem bolinha de gude pra assistir, eu assisto. Jogo também o que tiver.

Mundo Blá: Isso ajuda na composição do seu trabalho?

Giuliano: Sim. De uns tempos pra cá, eu tenho tentado sempre juntar, de alguma forma, um tema que eu goste com o cinema e a televisão, que é o que eu faço para sobreviver e aí fica mais saboroso produzir. 

Mundo Blá: Você é um publicitário prestigiado e já realizava outros trabalhos com esportes. Quando soube do projeto (Memória do Esporte), se interessou de imediato?

Giuliano: Foi logo de cara, na verdade. Eu fiquei sabendo por causa do “Esporte(ponto final)”, que é um outro trabalho que eu faço sobre esporte. Aí, o pessoal da assessoria de imprensa ficou sabendo do edital e me avisou, porque já tinha a ver com o que eu faço. A vontade de participar veio de imediato. A história que eu iria contar veio depois.

Mundo Blá: Essa história, então, surgiu dentre outras pautas? Como você chegou nela?

Giuliano: Primeiro, fui ler sobre o edital. Pensei bastante no que poderia ser interessante retratar, pensei em algumas histórias. Mesmo quando cheguei nessa do voleibol, o viés do saque Viagem e a mudança no comportamento do Brasil, de como enxergar um atleta de outra modalidade que não fosse o futebol, demorou um pouquinho. Conversei bastante com o Montanaro, com o Willian e com o Renan até ter a ideia final do roteiro. 

Mundo Blá: Quais os principais desafios que você enfrentou para concretizar esse documentário?

Giuliano: O desafio maior foi para o meu produtor, Rogério Zagallo, fazer todas as agendas, a logística das pessoas que precisavam estar no filme. Principalmente fazer com que elas se encontrarem para o filme acontecer num curto espaço de tempo, como o que tínhamos para a produção.

Mundo Blá: Quanto tempo?

Giuliano: Filmamos um pouco aqui, em São Paulo, mas o grosso mesmo foi em Los Angeles, no prazo de uma semana. Depois, ficamos um tempinho a mais em L.A., colhendo algumas imagens, para finalizar a cobertura do filme.

Mundo Blá: Você poderia citar alguma descoberta que fez durante o filme, mas que, por qualquer limitação, não “coube” no documentário? 

Giuliano: Descobertas sempre tem. Quando você faz um documentário, esse é o barato: você sabe algumas coisas, as quais você quer que apareçam no filme, mas tem curiosidade de saber outras. Então, conversa com as pessoas, vai atrás. Mas, além disso, apareceram várias histórias bacanas que, num filme de 26 minutos, você tem que escolher o que vai ou não contar. Editando um filme, você pode exercitar essas escolhas, para que apareça apenas o melhor do melhor ali. Esse é o desafio em fazer um filme.

Mundo Blá: Você poderia citar algumas dessas outras histórias?

Giuliano: Ah, tem várias, mas ficam para outros documentários. O importante foi o que ficou ali.

Mundo Blá: Então, podem ter outros documentários frutos desse?

Giuliano: Pode, sempre é possível. A história dos caras é longa, fantástica.

Mundo Blá: Ok, vou respeitar o suspense… Para finalizar, eu gostaria de saber a sua expectativa em relação ao resultado desse trabalho? 

Giuliano: Primeiro, eu olho pro projeto, depois para o roteiro, depois para o filme. Depois que eu vi a história pronta e revisitei todas essas coisas, fiquei feliz. Conversei com o Rogério Zagallo, que foi super importante para a realização do filme, que a sensação é de realização. Foi uma ideia que nasceu numa noite, durante uma conversa. Hoje, olhamos para o filme e pensamos “está tudo aí”. O que pensamos que precisava estar aí, está. Desde o encontro com eles, as conversas, a “cereja do bolo”, que considero o encontro com o Kiraly. Promover esse encontro mais de 30 anos depois e ainda fazer eles baterem uma bolinha foi muito bom.

Entrevista com Renan Dal Zotto e Willian Carvalho da Silva
Mundo Blá: De onde surgiu a ideia do saque “Viagem ao Fundo do Mar”?

Renan: Acho que o documentário retrata isso muito bem. Fomos de uma geração muito talentosa, criativa. Começamos a criar várias alternativas que poderiam ser armas de ataque e esse saque foi uma delas. Eu, Willian e Montanaro começamos a utilizar o saque com eficiência em quadra, principalmente nos jogos olímpicos.

Mundo Blá: Especificamente para esse saque, uma das versões de como surgiu é que vocês estariam treinando cortadas e foram se afastando da rede. Quando chegou na linha do saque decidiram que poderia ser o saque. 

Willian: Não foi bem assim. Nós brincávamos muito antes e depois dos treinos. Fazíamos duplas e jogávamos bola. Não sabemos ao certo quando teve início, mas começamos a treinar o saque lá do fundo, já tentando pontuar e “sacanear” a outra dupla. Certo dia, nosso treinador, que era o Bebeto, nos viu fazendo isso e pediu para usarmos em quadra, pois precisávamos de estratégia para encarar os gigantes que enfrentávamos. Com essas bolas, começou a dar certo.

Renan: O bacana nisso tudo foi o uso autorizado em quadra. Nossos treinadores, Bebeto e Brunoro, que nos permitiram fazer isso em quadra, foram peças importantes neste contexto. Afinal, poderiam nos dizer para não usar o saque. 

Mundo Blá: Quando veio efetivamente essa autorização?

Renan: Bem no começo da década de 1980 mesmo, não sabemos exatamente. Desde 1981, já usávamos em alguns treinamentos, alguns jogos esporádicos. Mas, com eficiência e sistemática, foi mesmo nos jogos olímpicos.

Mundo Blá: Em alguma dessas brincadeiras que a equipe fazia, antes e depois dos treinos, surgiram mais jogadas interessantes? Ou também alguma que não vingou?

Renan: Muitas coisas surgiram da nossa geração. O saque “Jornada nas Estrelas” (utilizado pelo jogador Bernard); as combinações de ataque do fundo de quadra – antes as bolas eram lentas no fundo da quadra, nossa geração que começou a brincar com o ataque do fundo. Com o passar do tempo, tudo foi aprimorado, mas essas e outras coisas, nós inovamos nesse período.

Mundo Blá: Quando perceberam que o saque estava dando certo, desestruturando as equipes rivais e levando a torcida ao delírio, qual foi a reação de vocês?

Willian: Se soubéssemos que faria tanto sucesso, teríamos patenteado e hoje estaríamos bilionários! 

Renan: Sim, 1 real para cada saque viagem… Não esperávamos tudo o que foi.

Mundo Blá: Demorou para cair a ficha, digamos assim, do tamanho do feito de vocês, tendo esse saque sido espalhado e praticado pelo resto do mundo, sendo hoje essa arma fundamental, de primeiro ataque? 

Willian: Na verdade, acho que está caindo só agora mesmo.

Renan: Não tínhamos muita noção do quanto isso iria se tornar uma prática dentro do vôlei. Tinha o risco de ninguém dar importância, mas não foi. Quando vimos, estava se tornando uma prática natural, normal e acabou sendo uma grande arma hoje.

Mundo Blá: Vocês já estavam na seleção no finalzinho dos anos 1970, quando o vôlei ainda era amador. Sentiram muito a diferença de quando passou a ser profissional? 

Willian: Sim. Eu entrei na seleção em 1972, o Renan em 1976/77. Nessa época, tinha uma espécie de ajuda de custo. Depois, quando profissionalizou, tínhamos um salário que já nos permitia viver do esporte e foi sensacional. Mas, no começo, era muito difícil.

Renan: Não é nada comparado ao que acontece hoje, mas tivemos todo o apoio com esse profissionalismo, que começou em 1981. Antes disso, era uma ajuda de custo, o salário era quase um agrado.

Mundo Blá: A partir de 1981 a rotina de treinos mudou muito, ou foi evoluindo aos poucos?

Willian: Os clubes, no geral, passaram a treinar muito forte, duas vezes por dia, todos os dias, com mais estrutura. A Confederação Brasileira nos deu uma estrutura de acordo com o que desejávamos, que era uma medalha olímpica. Então, tudo foi crescendo. Tudo o que acontece hoje começou ali, na nossa geração.

Mundo Blá: Vocês plantaram a semente, abriram as portas do volei para o Brasil e para o mundo. Hoje, quando vocês olham o cenário, acreditam que o volei chegou onde deveria estar? 

Willian: Com certeza. Acho que hoje, o Brasil é referência. Antigamente, nós copiávamos alguns países; hoje, todos copiam o Brasil. Somos referência, somos o segundo esporte do país. Alguns dizem até que o primeiro, porque futebol não seria esporte, mas sim uma religião.

Renan: Hoje, o vôlei é uma realidade. Antigamente, era um grande ponto de interrogação: é uma moda ou uma realidade? Depois que começamos a subir no pódio, o vôlei nunca mais desceu, seja masculino, feminino, praia… O Brasil tem uma escola de vôlei onde pessoas de vários países vêm para cá para aprender.

Mundo Blá: Qual era a motivção para ser um jogador de vôlei e os principais desafios para a época?

Renan: A gente tinha o desafio de vencer, mas, acima de tudo, queria transformar o voleibol numa modalidade conhecida, popular. Transformar tudo numa grande modalidade esportiva, reconhecida pelo público. Esse era o desafio e a motivação.

Willian: Sim, consistia em sermos bons atletas, dar nosso melhor e ajudar o nosso time e a Seleção Brasileira a irem para frente.

Mundo Blá: Quem nomeou o saque? 

Renan: Foi o Brunoro (membro da equipe técnica da época).

Willian: Sim, me lembro muito bem que a gente ia jogar contra o Bernard, no Rio de Janeiro, e ele usava o saque “Jornada nas Estrelas”. Aí, perguntaram qual seria a nossa jogada, a nossa arma pra parar o Jornada. Então, dissemos que também usaríamos um saque diferente. Pelo fato de o Jornada ser nome de um seriado televisivo da época, o Brunoro apelidou de “Viagem ao Fundo do Mar”, que também era um seriado, para competir.

Mundo Blá: Em algum momento, vocês estranharam e quiseram mudar o nome?

Renan: Não, para nós isso pouco importava. A gente estava se divertindo.

Willian: Isso, como você pode ver, era tudo uma grande brincadeira.

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Quem escreveu isso?

Apaixonada. Gosta de palavras, tulipas, romance e gentilezas. Não gosta de covardia, stress e novela mexicana.